0# CAPA 19.8.15

VEJA
www.veja.com
Editora ABRIL
edio 2439 - ano 48  n 33
19 de agosto de 2015

[descrio da imagem: foto de Joo Vaccari, de frente. Aparecendo dos ombros para cima. Uma montagem de foto onde aparece colocada em seu peito a faixa presidencial o Brasil, e onde est o emblema da repblica, por cima est o smbolo do PT. Tambm descendo desde a cabea, at o ombro do lado dinheiro, notas de dlares]. Joo Vaccari, ex-tesoureiro do PT preso e criador da expresso "pixuleco como sinnimo de propina.
A REPBLICA DO PIXULECO
A Lava-jato chega  esplanada dos ministrios
Exclusivo A empresa do ex-presidente Lula faturou 27 milhes de reais  10 deles de construtoras investigadas no petrleo.

[outros ttulos: parte superior da capa]
VEJA TRADUZIU E ADAPTOU A CALCULADORA AMERICANA QUE REVOLUCIONA O CONTROLE DE CALORIAS
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1# SEES
2# PANORAMA
3# BRASIL
4# ECONOMIA
5# INTERNACIONAL
6# GERAL
7# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 19.8.15

1#1 VEJA.COM
1#2 CARTA AO LEITOR  NEM EXPLODE NEM SALVA
1#3 ENTREVISTA  CSAR HIDALGO  S A EDUCAO  POUCO
1#4 LYA LUFT  UMA LUZ POSSVEL
1#5 LEITOR

1#1 VEJA.COM
COLABORE COM A NASA
A Nasa vai criar um aplicativo para os smartwatches que devero ser usados por astronautas em misso. Voc est convidado a ajudar no seu desenvolvimento. O conceito  o do crowdsourcing  a reunio de pessoas espalhadas pelo mundo, mas conectadas por uma rede, para criar produtos e solucionar problemas. Neste caso, a rede  o Freelancer.com, servio que liga empresas a profissionais que so remunerados pelas tarefas que cumprem. Entre os desafios propostos pela Nasa est, por exemplo, a criao de ferramentas para controle dos robs de mdulos espaciais. Em entrevista ao site de VEJA, o australiano Matt Barrie, CEO do Freelancer.com, explica por que a agncia espacial americana adotou esse modelo para acelerar a inovao. 

O GAL COM PEGADA
Alex (Rodrigo Lombardi) se aproxima de Angel (Camila Queiroz), que est de costas para ele, e comea a beijar o pescoo e os cabelos da menina. Ela se prepara para fugir, mas  agarrada e se rende, mais uma vez, aos encantos do empresrio, traindo a prpria me, Carolina (Drica Moraes), a nova mulher de Alex. A cena, exibida na novela das 11 da Globo, Verdades Secretas, mostra que Rodrigo Lombardi  o atual "gal com pegada" da emissora. "Desde o primeiro momento, pensei nele para o papel. Mas fiquei impressionado com sua forma fsica, que  um dos elementos que tornam o Alex to forte diante do pblico", diz o autor Walcyr Carrasco ao site de VEJA, que passa em revista a carreira do ator. 

KIM JONG-UN BALANA
O governo da Coreia do Norte d sinais de fraqueza. O rgido controle social e a unidade poltica pelos quais sua desptica administrao  to famosa e temida j no so efetivos como antigamente, e a confiana dos polticos e militares que cercam Kim Jong-un parece se dissipar.  assim que especialistas interpretam o aumento das execues e da represso no pas. A luta pelo poder em um regime totalitrio em desmanche pode ter consequncias catastrficas. Reportagem no site de VEJA explica por que a situao norte-coreana preocupa a comunidade internacional. 


1#2 CARTA AO LEITOR  NEM EXPLODE NEM SALVA
O Brasil tem problemas grandes e reais. Os polticos em Braslia tambm tm problemas grandes e reais. Adivinhe qual a prioridade deles. Acertou quem disse que os polticos se mexem, antes de qualquer coisa, para resolver as prprias encalacraes. Os dois exemplos mais recentes desse comportamento so o que os jornais chamam de pauta-bomba e de Agenda Brasil. A pauta explosiva seria formada pelas propostas de emenda constitucional (PECs) e por outras iniciativas da Cmara dos Deputados que, se vierem um dia a entrar em vigor, aumentaro em alguns bilhes de reais os gastos do governo. A Agenda Brasil, por sua vez, engloba uma srie de propostas do Senado anunciadas na semana passada que, se um dia se efetivarem, tambm vo aumentar em muitos bilhes os gastos pblicos. 
A pauta da Cmara  associada ao seu presidente, o deputado Eduardo Cunha, do PMDB do Rio de Janeiro. A do Senado tem as digitais do presidente daquela casa, o senador pelo PMDB de Alagoas, Renan Calheiros. Ambas servem aos interesses polticos diretos de seus patronos. Renan procura angariar a boa vontade do Palcio do Planalto, o que, acredita ele, aumentaria suas chances de escapar de ser denunciado por revelaes da Operao Lava-Jato. Cunha no tem mais esperana de escapar da denncia a ser oferecida contra ele por Rodrigo Janot, procurador-geral da Repblica, tambm por revelaes da mesma operao. A pauta-bomba funcionaria para Cunha como um anteparo. Ela une os deputados em torno dele e, ao mesmo  tempo, ajuda a tornar crvel sua linha de defesa, segundo a qual Janot vai denunci-lo apenas por ter rompido com o governo. 
Uma reportagem desta edio de VEJA mostra que nem a pauta-bomba tem, como se apregoa, octanagem para detonar as contas pblicas nem a Agenda Brasil  a salvao da ptria. So apenas duas iluses convenientes com chances escassas de se tornarem realidade. As PECs da Cmara podero, simplesmente, ser abatidas quando chegarem ao Senado. A Agenda Brasil sofre do problema crnico que surge nessas ocasies. Ela tem coisas boas e novas. Ocorre que as boas no so novas e as novas no so boas. 
Nenhuma delas vai abater um centavo da dvida pblica bruta de 63% do PIB ou diminuir a desconfiana que obriga o Brasil a gastar 20% das receitas com o pagamento de juros. Nenhuma afasta o perigo real de sermos empurrados para o purgatrio financeiro, paradeiro dos pases rebaixados pelas agncias internacionais de avaliao de crdito. Nenhuma incentiva o aumento do indicador que melhor aponta se um pas est no rumo certo, a produtividade, que cresce aqui a pfio 0,6% ao ano, o menor ndice entre doze das principais economias do mundo. De positivo nesses episdios, destaque-se mais uma prova da volta do protagonismo ao Legislativo brasileiro e de convivncia harmnica, mesmo que atritada, entre os poderes. No  pouca coisa. 


1#3 ENTREVISTA  CSAR HIDALGO  S A EDUCAO  POUCO
O fsico do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) diz que o grande motor do desenvolvimento  a capacidade da sociedade de armazenar e processar o conhecimento.
ANA CLARA COSTA

Expoente do exponencial Media Lab, um dos mais inovadores centros de estudos do conhecimento do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, o fsico chileno Csar Hidalgo ganhou renome por traduzir em grficos engenhosos grandes massas de informao. Seu campo de estudo  ainda mais amplo. Em 2009, em parceria com o economista venezuelano Ricardo Hausmann, de Harvard, ele ps de p um ndice para medir a complexidade econmica. Isso o levou a uma empreitada ambiciosa. No recm-lanado Why Information Grows (Por que a Informao Aumenta), ele segue a trilha aberta por Robert Solow, ganhador do Nobel de Economia, para quem no h crescimento sustentvel sem educao e conhecimento. 

Quais so as consequncias prticas de tentar entender os mecanismos do crescimento econmico pela tica da tecnologia da informao? 
O conceito de informao que utilizo no  o da linguagem cotidiana  aquilo que encontramos em uma pgina de jornal ou em um tute. Meu conceito vem da fsica, a disciplina em que me formei. Informao, nesse contexto,  um sinnimo aproximado de ordem, de estrutura. No mundo das coisas criadas pelo homem, tanto um cesto de vime quanto um carro movido a energia eltrica so portadores de informao. Eles so constitudos de tais e tais materiais, processados desta ou daquela maneira, construdos de certa forma. O que varia  a complexidade da informao. No carro eltrico, ela  muito maior que no cesto de vime. Por que alguns grupos humanos s so capazes de produzir cestos, enquanto outros so capazes de construir carros? Como um grupo do primeiro tipo pode se transformar em um do segundo? A forma de raciocnio que proponho lana luz sobre essas perguntas, ao desvelar como uma sociedade acumula e processa informao e como traduz isso em riqueza material. As economias mais pujantes so justamente as mais eficientes nesse campo. Dito de outra maneira, o crescimento de uma economia deriva do aumento da informao embutida nela. 

Pode-se resumir tudo em melhorar a educao? 
Sim e no. Associar investimentos em educao a desenvolvimento  uma armadilha, porque a complexidade econmica requer mais que isso. Para um pas se desenvolver, no basta ter gente educada.  preciso ter gente educada e capaz de trabalhar de maneira coordenada com outras pessoas e equipes. Voltando ao exemplo anterior, um cesto de vime pode ser feito por uma nica pessoa.  um saber que se passa de pai para filho. A cadeia de conhecimento envolvida na criao de um carro eltrico  imensamente maior. Em meu livro, estudo os casos de Gana e Tailndia. Entre 1960 e 2010, Gana investiu mais em educao e alcanou um nvel de escolaridade melhor que o da Tailndia. Mas a estrutura produtiva de Gana, ou seja, o que essas pessoas eram capazes de fazer quando se reuniam em equipe, no era de alta complexidade. Eram produtos muito simples, s vezes rudimentares. O esforo educacional em Gana no se traduziu em aumento de sua complexidade econmica. A Tailndia, apesar de ter uma mdia educacional mais baixa, cresceu muito mais rpido, porque outros elementos culturais favoreciam o trabalho em equipe, a combinao de conhecimento em cadeias produtivas e mercadorias finais muito mais complexas. 

Em que circunstncias o investimento educacional  mais produtivo? 
Um pas no se desenvolve sem alguns pressupostos materiais, como um bom sistema de transporte e comunicaes, e sem nveis mnimos de segurana pblica, segurana jurdica e respeito aos contratos. Enfim, fatores que afetam a capacidade de criao e execuo de pessoas trabalhando em grupo. O Brasil desenvolveu, nos ltimos anos, polticas louvveis de reduo da desigualdade e desenvolvimento social. Mas o melhor gestor da incluso social no  o Estado. Os pases onde a desigualdade  mais baixa so justamente aqueles em que o grau de complexidade econmica  mais alto. As economias de alta complexidade, ou seja, aquelas em que os fatores econmicos, educacionais e tecnolgicos se entrelaam em relaes de interdependncia e de subordinao, pem em funcionamento um crculo virtuoso altamente inclusivo. 

Como medir a complexidade de uma economia? 
Desde 2009, desenvolvo, com colegas de diversas disciplinas, um indicador sobre isso, o Economic Complexity Index (ECI). Ele tem uma verso brasileira, o Data Viva, fruto de uma parceria entre o MIT e o governo do Estado de Minas Gerais. O ndice atribui um peso  informao contida em cada produto, do material  tecnologia e aos processos de gesto necessrios para que ele seja criado. A complexidade dos produtos de uma regio revela muito mais sobre ela do que o produto interno bruto (PIB), pois reflete os investimentos em educao e o tempo de escolaridade da populao. So Jos dos Campos, em So Paulo, o bero da Embraer,  um centro produtor e exportador de avies. Portanto, juntam-se ali pessoas que entendem de fsica, outras que sabem desenhar fuselagens e asas ou que dominam a tecnologia da informao. A anlise da complexidade de cidades como So Jos dos Campos e dos produtos que saem delas serve de base para estabelecer polticas que aumentem o potencial de crescimento de muitas regies. 

O PIB no mede essas complexidades? 
O PIB  uma medida agregada, que consiste na soma de produtos e servios em uma economia. Ele no considera os elementos que fazem um pas funcionar. O PIB pode ser exatamente o mesmo para uma economia que produza carros e avies e outra que exporte bananas e carvo, ainda que elas tenham um DNA completamente diferente. O PIB no discerne a capacidade produtiva de uma regio, e isso faz dele um indicador incompleto. 

As naes de economia mais complexa so mais resistentes s crises peridicas do capitalismo? 
Sim. Pelo indicador de complexidade, podemos saber se um pas tem estrutura produtiva capaz de absorver os investimentos e transform-los em riqueza. Muitos pases apresentam renda per capita alta e crescimento razovel, mesmo sem ter indstrias ou capacidade tecnolgica.  o caso da Grcia antes da crise. No outro extremo, situam-se a China e a ndia, pases de baixa renda per capita mas de economia complexa e amplos recursos tecnolgicos e de conhecimento especializado. Os investimentos na China e na ndia se traduzem rapidamente em crescimento econmico que evolui rumo a uma situao de equilbrio estvel entre produo e renda. A Grcia, por seu turno, derreteu quando o dinheiro deixou de entrar. No h muita dvida sobre qual modelo tem mais capacidade de sobreviver aos grandes solavancos financeiros. 

Parte do trabalho do MIT Media Lab  criar maneiras de apresentar dados complexos e conhecimento em grficos. Qual  a importncia da visualizao de dados no processo de apreenso da informao? 
Somos programados biologicamente de tal forma que visualizar imagens funciona muito melhor para a captao de informaes do que ouvir, sentir ou interpretar cdigos alfabticos ou numricos. Os seres humanos precisam ver para crer. Usada da maneira adequada, a visualizao  muito mais eficiente do que limitar-se s palavras. Transformar em imagens os volumes gigantescos de dados que circulam pelo mundo digital torna muito mais fcil entender seu significado. As ferramentas de visualizao de dados que produzimos no Media Lab permitem a gestores de empresas ou administradores de cidades entender mais rapidamente fenmenos muito complexos. 

A perda de espao da indstria para o setor de servios  a caracterstica definidora da economia brasileira atual. Do ponto de vista do ndice de complexidade, isso  ruim? 
O processo constante de desindustrializao do Brasil, combinado com o aumento das barreiras comerciais,  um retrocesso. No comeo deste sculo, o pas exportava muito mais maquinrio, produtos qumicos e nibus do que hoje. O peso desse tipo de exportao diminuiu em relao ao das matrias-primas. Exportar commodities e ter um setor de servios vibrante no , em si, uma condenao  runa. Mas priorizar isso em detrimento de desenvolver uma indstria eficiente e mundialmente competitiva  um erro grave. O Brasil, a meu ver, deveria reavaliar a prtica de dar benefcios eternos a indstrias incapazes de competir com os produtos importados. A retirada dos benefcios em um ritmo suficientemente lento para evitar quebradeira criaria um efeito revolucionrio no pas. 

A abordagem ideolgica das questes econmicas ainda tem lugar? 
Argumentaes ideolgicas tm como premissa o fato de que a verdade absoluta existe e est registrada no livro de algum economista ou filsofo morto. Isso freia a liberdade de pensamento e a execuo de polticas pragmticas em qualquer rea do conhecimento, em especial na economia. A argumentao cientfica, por outro lado, pressupe que o ponto de partida para tudo  a ignorncia, e no o dogma. 

A complexidade que se v no Vale do Silcio, nos Estados Unidos,  a prova de que sua teoria est certa? 
O que se observa no Vale do Silcio  uma interao altamente complexa entre grupos, e no entre expresses individuais de conhecimento. A educao de qualidade, o estmulo e as oportunidades se combinaram ali para o surgimento de numerosos grupos de excelncia. O Vale se tornou um sistema to complexo de produo de conhecimento que seu funcionamento independe de um indivduo qualquer. A melhor cabea poderia desaparecer agora de l e isso no faria a menor diferena. O sistema continuaria funcionando e aprimorando-se. A questo mais interessante que o exemplo nos prope  por que, havendo tanto dinheiro e a mesma educao de qualidade em outras regies dos Estados Unidos, no surgiram outros polos to inovadores. Por que o corredor tecnolgico de Boston, com tantas universidades de primeiro nvel, foi superado pelo Vale do Silcio? Por que o Brasil  menos desenvolvido que os Estados Unidos? A resposta  a mesma. Tudo depende da forma como as pessoas e as empresas se integram em redes complexas. 

H atalhos para uma economia saltar da condio de baixa para alta complexidade? 
Infelizmente, esse  um processo que requer tempo e esforo. Nos pases mal servidos de tecnologia, o dinheiro e as oportunidades gravitam em torno de indstrias velhas. A abertura comercial e a liberdade para o fluxo de pessoas e ideias so a receita para quebrar o marasmo. Para que o conhecimento circule, no basta recorrer  internet,  preciso que um pas esteja aberto a trabalhar com grupos de outras naes, esteja apto a receber empresas de outros lugares e, da mesma forma, consiga inserir seus produtos numa cadeia global.  vital entender a economia como um armazenador e processador de dados. A economia s cresce se a capacidade de processamento se amplia, agregando pessoas qualificadas, empreendedoras e que confiam umas nas outras. 

Por que a confiana  importante? 
A confiana diminui o custo de transao. Com ela,  mais fcil interagir, os vnculos so mais slidos e mais duradouros. S assim  possvel participar de redes amplas, acumular conhecimento e, eventualmente, atingir graus mais altos de complexidade. Sociedades com baixo grau de confiana organizam-se em redes sociais menores e mais frgeis, em que menos informao circula e a chance de fazer coisas complexas  menor. A corrupo, sobretudo combinada com a impunidade,  o indicador mais forte da falta de confiana em uma sociedade.  o veneno que mata o desenvolvimento e a inovao. 


1#4 LYA LUFT  UMA LUZ POSSVEL
Os noticirios de televiso tm sido um desfile de atrocidades e crimes: infelizmente, a gente se acostuma, quase no sente mais horror ao ver a carnificina. Quem sabe para se salvar, desliga o aparelho e toma um caf em sossego antes de sair  luta. 
Mas, numa dessas notcias, filmada por cmeras de vigilncia, apareceu uma inacreditvel cena que me chocou, e comoveu tanto a reprter que ela teve de engolir duas, trs vezes para controlar a emoo e a voz. 
Bandidos armados invadiram um supermercado. Um policial de folga, sem farda, atacou o bandido mais prximo, que o derrubou e friamente lhe deu trs tiros. Pessoas corriam; pnico e confuso. De repente, no meio da cena aparece, de costas para mim, um menininho de 5 anos. O bandido passou por ele correndo, e a criana levantou os dois bracinhos num gesto de defesa: estava fazendo mos ao alto, "no me mate". O criminoso atirou por cima do menino, que finalmente foi encontrado pelo pai e levado em seus braos daquele cenrio surreal, nesta vida surreal, neste pas surreal.  
A que ponto chegamos: recentemente, um secretrio de Segurana afirmou em entrevista que procura no sair de casa  noite, e quando sai evita parar nos sinais de trnsito com luz vermelha. O que resta a ns, coitados brasileiros, que precisamos estar na rua  noite, voltando do trabalho ou indo para ele, e que, alm de tudo, se flagrados ultrapassando o sinal vermelho  noite, mesmo sem trfego, seremos multados? 
Parece irremedivel esse teatro de loucuras no qual se desenrolam os mais insanos cenrios polticos. Frases alienadas sobre como estamos bem nessa "travessia", festival de grandes traies ou deslealdades sutis, mas eficientes. Pobre nau sem comandante, sem roteiro sabido, grandes e pequenos ratos abandonando o barco ou trocando de papel neste pattico e vergonhoso salve-se quem puder. A economia, um desastre; projetos faranicos inteis prosseguem; por outro lado, enormes construes se deterioram abandonadas, dinheiro posto fora. E todos somos aquele menininho de 5 anos levantando os braos para pedir que nos poupem. 
Mas talvez nem tudo esteja perdido. O pas foi submetido a uma surpreendente e saudvel faxina com a Lava-Jato, que autoridades delirantes tentam responsabilizar pelo declnio geral  "A Lava-Jato reduziu o PIB! A Lava-Jato causa demisses em massa!" , como se fssemos todos idiotas, e o bandido no fosse o bandido. 
Visivelmente, a crise estende seus tentculos at ns ou pessoas queridas: timos profissionais so demitidos, no por crueldade das empresas, mas porque, se no cortarem na carne, como o governo deveria fazer, viro a falncia e muitos milhares de demitidos mais. Todos remanejamos nossas despesas e nossa vida com a sombra do desemprego pairando sobre a cabea. No porque ns erramos (a no ser incrveis milhes de brasileiros na hora de votar), mas porque, repito, estamos pagando uma dvida alheia. 
Temos, porm, uma esperana, sim: a Justia se move. Desvenda uma onda destrutiva na Amrica Latina, que nos devastaria se no fosse detida. Age como nunca antes. Polticos e empresrios poderosos esto sendo investigados e presos, abre-se o sombrio labirinto de roubalheira e corrupo em que tantos enriqueceram  custa dos pobres e dos honestos. Desta vez, no se tapa a sujeira com um montinho de cinismo, mas ali esto, expostos ou encarcerados, alguns dos grandes responsveis pela situao em que nos encontramos. Pelo que se diz, sero muitos mais. Esta  a boa pequena luz: a Justia funciona, as instituies esto de p e, se no formos muito irresponsveis e alienados, poderemos ter algum horizonte. 
Como me disse um amigo, "na memria profunda do povo vai ficar marcada a associao entre certa ideologia e o roubo puro e simples que estava nos destruindo. E agora estamos recebendo uma vacina cavalar contra futuras faanhas desses aventureiros". 
Esperemos que sim. Amm!
LYA LUFT  escritora


1#5 LEITOR
PANELAO
O panelao contra Lula e Dilma  principalmente  pode ser ainda maior com o grande desemprego causado pelo governo do PT ("O Brasil perde a calma", 12 de agosto). 
EDSON JORDO 
Timbaba, PE 

A manchete da capa de VEJA levou-me imediatamente ao socorro que o Brasil pede, mas a resposta  de perda de esperana. As caractersticas citadas no subttulo da reportagem "Um dilogo de surdos", na pgina 45 ("crise econmica, crise poltica, traies, impeachment, Lava-Jato, impopularidade"), levam a uma panela velha, amassada, machucada, esmagada, e no a uma panela novinha como a da capa. 
FRANCISCO GIALDI 
Maravilha, SC 

De onde vir o socorro? Da prepotente presidente Dilma? Do bem-intencionado, mas castrado em suas falas, vice-presidente Michel Temer? Do orgulhoso e inescrupuloso Lula? O que existe  um dilogo de surdos; a crise econmica corroendo tudo; os polticos dando chutes em todas as direes como um bando de aloprados; traies e ameaa de impeachment. 
OSAS FERNANDES 
Cachoeira de Itapemirim, ES 

Atualmente, no Brasil prevalece a desarmonia, e o povo perde a pacincia e pede socorro. 
DIOGO LICURGO MEIRELES NUNES 
Natal, RN  

ACIO NEVES 
Contundente, esclarecedora e rica em contedo a entrevista com o senador Acio Neves ("O PT atrasou o Brasil em 20 anos", 12 de agosto). Ao afirmar que encheu as panelas do povo brasileiro, o PT deixou de dizer que tambm temperou e recheou as contas bancrias de alguns privilegiados seus,  custa de uma corrupo generalizada, sistematizada e orgnica, como declarou Acio. 
JOS HERMINIO CALTABIANO 
Taubat, SP 

MALSON DA NBREGA 
Como sonhei em ler o que o ex-ministro Malson da Nbrega escreveu no artigo "Como o PT travou o crescimento do Brasil" (12 de agosto). O PT pegou um barco a vela, na poca de Lula, com o vento soprando com vontade. Quando o vento diminuiu, quase parando, o governo no soube como continuar a navegar. 
ANTONIO CARLOS RODRIGUES 
Niteri, RJ

OPERAO LAVA-JATO 
Jos Dirceu foi a prova viva da sntese de um pensamento de Rousseau: o meio corrompe o homem. A nova priso de Dirceu mostra aos seus seguidores a farsa de heri imaginrio e traz esperana aos brasileiros que nunca desejaram esse partido no poder ("O fim da farsa", 12 de agosto). 
GIULIANA KAWAKAMI SUGISAWA 
Curitiba, PR 

CASO ROMRIO 
VEJA surpreendendo, como sempre: errou, reconheceu o erro, desculpou-se e vai apurar os fatos ("Aquela conta no  dele", 12 de agosto). Em quase meio sculo de existncia, continua confivel. Parabns! 
FRANCISCO JOS VALE VIEIRA 
Belm, PA

VEJA demonstra sua responsabilidade. Tenho orgulho de ser assinante da publicao mais confivel do Brasil. 
ANDR FETIZON 
Itu (SP), via tablet 
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2# PANORAMA 19.8.15

     2#1 IMAGEM DA SEMANA  ARPOCALIPSE NOW
     2#2 DATAS
     2#3 CONVERSA COM COLIN COWIE  O SUCESSOR DE BABETTE
     2#4 NMEROS
     2#5 SOBEDESCE
     2#6 RADAR
     2#7 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA  ARPOCALIPSE NOW
A exploso em um porto intoxicou a atmosfera poltica na China.

A exploso de um armazm de produtos qumicos, na quarta-feira 12, deixou um cenrio apocalptico no Porto de Tianjin, a 160 quilmetros de Pequim. Se fosse a locao de uma srie de TV, haveria zumbis cambaleando por entre os milhares de carros importados que foram reduzidos a carcaas de metal tostadas. Em vez de mortos-vivos, o acidente deixou mortos-mortos  56 deles. Quase metade das vtimas eram bombeiros, que haviam sido chamados para combater um incndio antes da exploso. Uma das substncias estocadas no local torna-se altamente inflamvel quando em contato com gua. Suspeita-se que os bombeiros, portanto, ao tentar controlar o fogo, tenham inadvertidamente criado as condies para um desastre maior. Entre os feridos esto tambm os moradores de conjuntos habitacionais situados a algumas centenas de metros do armazm. A existncia de indstrias poluentes e depsitos com substncias txicas em reas residenciais  a principal causa de revolta dos cidados contra o governo chins. A China tem, em mdia, 780 protestos de motivao ambiental por ano. Os chineses no vo s ruas para pedir democracia, mas enfrentam a represso para reclamar dos efeitos que tem para sua vida o fato de que sete das dez cidades do mundo com pior qualidade do ar esto no pas, 70% de seus rios so poludos e 90% dos lenis freticos urbanos so contaminados. Os mais catastrofistas acreditam que se aproxima o dia em que o ar ficar to poludo que as pessoas comearo a morrer subitamente envenenadas. Para os moradores de Tianjin, desconfiados de que a fumaa que dois dias depois da exploso continuava emanando do porto era txica, o "arpocalipse" j chegou. 
DIOGO SCHELP


2#2 DATAS
MORRERAM
Manuel Contreras, ex-chefe da Direo Nacional de Inteligncia (Dina), a polcia secreta do Chile, durante a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990). Era a Dina que operava os centros de deteno e tortura clandestinos responsveis pela represso e pelo assassinato dos opositores do regime. Contreras havia sido condenado a mais de 500 anos de priso, em 58 sentenas definitivas (outros 56 julgamentos continuavam pendentes). Nascido em Santiago, o futuro general entrou para a escola militar em 1944. Logo se destacou como um dos melhores alunos. Sua triunfante carreira o levou a se transformar no brao-direito de Pinochet. Foi dele a iniciativa de montar a Operao Condor, que, nas dcadas de 70 e 80, promoveu aes coordenadas de ditaduras latino-americanas  incluindo a brasileira  destinadas a eliminar focos de oposio. O anncio de sua morte provocou comemoraes nas ruas da capital chilena. Houve quem bebesse champanhe; quem desfraldasse bandeiras do Chile; quem exibisse fotos de desaparecidos ao longo dos anos de chumbo do pas. Chamou particularmente ateno um cartaz que dizia: "Boa viagem ao inferno, assassino". Contreras, paciente de cncer de clon e diabetes, teve seu quadro agravado recentemente e vinha se tratando num hospital militar. Dia 7, aos 86 anos, em Santiago. 

Miguel ngel Jimnez Blanco, ativista mexicano que estava  frente das buscas dos 43 alunos de uma escola rural do Estado de Guerrero desaparecidos desde setembro de 2014. No ano anterior, ele fundara o Xaltianguis, grupo ligado  Unio dos Povos e Organizaes de Guerrero, para se opor s presses dos traficantes de drogas da regio. Regularmente, o lder comunitrio subia as colinas locais para tentar encontrar corpos ou ao menos pistas dos estudantes. Dia 8, aos 45 anos, assassinado a tiros em seu txi, em Xaltianguis. 

Ann McGovern, escritora nova-iorquina conhecida sobretudo por sua vasta produo voltada para o pblico infantil. Ela tambm publicou livros de poemas e biografias de personalidades femininas. Filha de um bacteriologista e de uma professora, Ann Weinberger ficou rf de pai aos 5 anos. Acometida de uma profunda gagueira durante a infncia, encontrou refgio nos livros. Aos 19 anos, abandonou a Universidade do Novo Mxico para se casar com seu professor de ingls, Hugh McGovern. Trs anos depois, divorciada, conseguiu emprego numa editora. Sua estreia como autora ocorreu em 1955, com Roy Rogers e o Leo da Montanha. Ann publicou mais de cinquenta ttulos, que venderam milhes de exemplares. Entre seus trabalhos de maior xito est uma releitura de A Sopa de Pedra (1986). Dia 8, aos 85 anos, em Manhattan. 

Renato Ladeira, parceiro de Cazuza na cano Faz Parte do Meu Show (1988), vocalista e tecladista da banda carioca Herva Doce. Filho do radialista Csar Ladeira e da atriz Renata Fronzi, ele montou, aos 13 anos, ao lado do irmo Csar, o grupo The Bubbles, que tocava i-i-i. Mais tarde, nos anos 1970, com o nome de A Bolha, a banda chegou a acompanhar apresentaes de Gal Costa. Na dcada seguinte, Renato criou a Herva Doce, que teve hits como Erva Venenosa e Amante Profissional Em 1983, diante de 200.000 pessoas, ele e seus companheiros abriram o show do Kiss no Maracan. Renato tambm fez parte do grupo gacho Bixo da Seda. Dia 12, aos 63 anos, de parada cardiorrespiratria, no Rio. 


2#3 CONVERSA COM COLIN COWIE  O SUCESSOR DE BABETTE
O maior produtor de casamentos e eventos de Hollywood, que tem entre seus clientes Jennifer Aniston, Kim Kardashian, Oprah Winfrey e Tom Cruise, veio ao Brasil para dar palestras e contar (apenas alguns de) seus truques.

Quais so as modas em casamentos de famosos que j sero copiadas por aqui? 
As comidas tm de ser orgnicas, mas no s isso: os convidados querem saber de onde os ingredientes vm, e a preferncia  por itens locais. No cardpio, escrevemos algo como: "Peito de frango grelhado da Fazenda Snake River". Tambm contratamos mixologistas, que so barmen que estudam a composio de drinques com rigor cientfico e falam sobre eles aos convidados. 

 muito diferente planejar um casamento para uma celebridade e para um cliente endinheirado, mas annimo? 
Sim. As celebridades acham que devem pagar menos e que, quanto mais servios gratuitos conseguirem, melhor. Privacidade  uma questo importantssima. Criamos pseudnimos para falar delas at mesmo com os fornecedores. 

Qual foi o casamento mais memorvel que produziu? 
Tive famlias reais do Oriente Mdio que gastaram 25 milhes de dlares numa festa. Para uma delas, tivemos de fretar cinco avies s para levar nosso equipamento. Em alguns desses pases, mulheres e homens ficam em ambientes separados; portanto, a decorao, a loua e os menus so totalmente diferentes. 

Por que acredita ser o maior organizador de festas do mundo? 
Viajamos o mundo descobrindo novas tendncias. Eu j rodei 20 milhes de quilmetros procurando o melhor em lugares como Turquia, Frana e Dubai. Ns j servimos armanhaque que misturava conhaques com a mesma idade do noivo e da noiva, tivemos 400 garons para 400 convidados e, para um casamento em Aspen, pedimos a um designer de peles que fizesse um casaco de zibelina para que a noiva pudesse passear pelas montanhas de tren. Custou o equivalente a 700.000 reais. 

Quais derrapadas de estilo um convidado deve evitar?
Fazer vdeos da festa e dzias de selfies. 


2#4 NMEROS 
21 anos fazia que o iuane, a moeda chinesa, no tinha uma queda to acentuada em relao ao dlar quanto a da semana passada. 
4,5% foi a desvalorizao imposta pelo governo  moeda em trs dias. A deciso foi uma tentativa de reverter os sinais de enfraquecimento da economia - em especial, das exportaes. 
1,8% foi a queda na produo de ao do pas no ms passado, a maior j registrada, e a bolsa se desvalorizou 25% em relao a junho - dois indicadores da desacelerao econmica chinesa.  
500 milhes de reais o Brasil deve deixar de receber com as exportaes para a China neste ano devido  desvalorizao do iuane, segundo clculo da Associao Brasileira de Comrcio Exterior.


2#5 SOBEDESCE
SOBE
Grcia -  O pas saiu da recesso com uma alta surpreendente do PIB, de 0,8%, no segundo trimestre. De quebra, fechou o terceiro pacote de ajuda, de 86 bilhes de euros. 
Energia atmica -  Quatro anos e meio depois do desastre de Fukushima, e dois depois de desligar todos os seus 48 reatores, o Japo voltou a produzir energia nuclear na semana passada, em Sendai. 
Campo -  A produo brasileira de cereais, leguminosas e oleaginosas neste ano vai bater novo recorde, com 209 milhes de toneladas, 8% acima da alcanada em 2014.

DESCE
Seguro-desemprego -  O tempo na fila para superar os trmites burocrticos e comear a receber o benefcio j chega a trs meses - no perodo pr-crise, a espera era de vinte dias. 
Universo -  Ele est morrendo lentamente, segundo o projeto Gama, que analisou 220.000 galxias distantes e constatou que as estrelas emitem metade do brilho de 2 bilhes de anos atrs. 
Rio Grande do Sul -  Depois de um calote de 263 milhes de reais, o Tesouro bloqueou todas as contas do estado, que est quebrado.


2#6 RADAR
LAURO JARDIM ljardim@abril.com.br

 GOVERNO
OUVIDO SELETIVO
No auge da crise do governo, semanas atrs, Lula comentou numa roda com senadores de partidos aliados: "A Dilma ouve, mas no escuta". 

SINAIS DA CRISE 
A que ponto as coisas chegaram: j h, acredite, deputado do PMDB recusando-se a indicar afilhados para o governo Dilma Rousseff. 

 LAVA-JATO 
O MUNDO DE DIRCEU 
A lenda que Jos Dirceu conseguiu espalhar nos ltimos meses, mesmo entre os seus amigos, de que estava quebrado, sem dinheiro, levou pelo menos um desses velhos companheiros a comear a consultar empresrios de So Paulo sobre uma possvel vaquinha para ajudar o mensaleiro. Se ele no fosse preso pela Lava-Jato, certamente essa grana a mais iria para a sua conta-corrente. 

RESTOU O CINEMA 
Meros pen drives tm feito sucesso entre vrios presos da Lava-Jato. Suas famlias gravam filmes que so enviados a Curitiba para ser vistos por eles em tablets  o que  permitido. Por falta de opo, viraram cinfilos. 

 CMARA 
AGORA, VAI 
Valmir Assuno, do PT da Bahia, apresentou um projeto de lei na Cmara para que 24 de junho, dia de So Joo, seja feriado nacional. 

 BRASIL 
SANGRIA DESATADA 
A Hemobrs, estatal que fornece derivados de sangue ao SUS, fez um negcio do arco da velha em maio. Rescindiu um contrato firmado em janeiro para armazenamento de plasma sanguneo, pelo qual desembolsaria 880.000 reais em seis meses, e contratou outra empresa para o mesmo servio, por mdicos 8,3 milhes de reais. Quase dez vezes  mais. As duas contrataes se deram com dispensa de licitao. 

 ECONOMIA 
MXI DISFARADA 
Sem alarde, o Brasil promoveu uma maxidesvalorizao do real nos ltimos doze meses  nada, claro, que estivesse na plataforma de campanha da reeleio de Dilma. S em 2015, o dlar se valorizou 30% ante o real. E, em um ano, 57%. Isso explica, em parte, a resistncia da inflao, apesar dos juros to altos. 

MAIS IMPOSTOS 
Na reunio que teve na tera-feira passada com os maiores banqueiros do pas, Joaquim Levy deixou-os convencidos de duas coisas. Primeiro, Levy no tem a menor inteno de deixar o cargo. Segundo, vai subir impostos. 

OS NEGOCIADORES 1 
Dois anos depois de encerrarem (ou, pelo visto, aparentemente encerrarem) uma feroz disputa societria, Ablio Diniz e Casino voltaram  mesa de negociao. E precisaram chamar negociadores especializados em grandes contendas para represent-los  os mesmos de dois anos atrs. 

OS NEGOCIADORES 2
Ablio botou em campo de novo William Ury, professor de Harvard. Quem negocia pelo Casino  o banqueiro David de Rothschild. Em jogo, as pendncias sobre as 62 lojas de Ablio alugadas ao Po de Acar.

BAIANO ABRE O JOGO
Fernando Baiano deu dois depoimentos na semana passada em Curitiba em sua negociao para o acordo de delao premiada. Outros depoimentos viro.  a fase em que o preso mostra suas cartas. Se a Justia considerar o material substancioso, a delao ser aceita. O que ele j disse  suficiente para deixar muita gente insone. Baiano contou operaes de Jos Carlos Bumlai, um dos maiores amigos de Lula, falou de negcios de Gregorio Preciado, contraparente de Jos Serra ( casado com uma prima do senador), e garantiu que o grande operador do PMDB no era ele - mas Jorge Luz, um paraense radicado no Rio de Janeiro e ligado a Eduardo Cunha. Apesar disso, at agora Baiano ainda no tocou no captulo mais explosivo - Eduardo Cunha. Ser instado, no entanto, a faz-lo.

TELEVISO
 moda do Netflix Est em desenvolvimento no Ministrio da Cultura uma espcie de Netflix brasileiro para ser lanado em 2016. Ainda no foi definido se a gesto da plataforma de vdeos sob demanda ser pblica ou em parceria com a iniciativa privada, mas vai incluir apenas filmes brasileiros. Haver fitas sob domnio pblico, oferecidas de graa, e filmes sobre os quais ainda incide direito autoral, que sero cobrados. 

 COMPORTAMENTO 
MERCADO RIJO 
Nem tudo est cado na economia brasileira. O mercado de prteses mamarias de silicone resiste: cresceu 15% no primeiro semestre ante o mesmo perodo de 2014, de acordo com a Silimed, a maior fabricante da Amrica Latina. Em comparao com o ano passado, porm, as brasileiras esto mais comedidas  em relao ao tamanho das prteses: o volume campeo de vendas em 2014 era 305 mililitros. Neste ano, o preferido para turbinar os seios  o de 285 mililitros. 

 MSICA 
NO TOPO 1 
Embora sejam sertanejas cinco das dez msicas mais tocadas nas rdios brasileiras no primeiro trimestre, a primeira colocada no pertence ao gnero. De acordo com levantamento indito do Ecad, a msica mais executada entre janeiro e maro foi Rude, da banda canadense Magic. Cuida Bem Dela, cantada pela dupla sertaneja Henrique e Juliano, e Ritmo Perfeito, na voz da funkeira Anitta, completam os trs primeiros lugares da lista. 

NO TOPO 2 
Entre os compositores que mais faturaram com direitos autorais no perodo, de acordo com o Ecad, Bruno Caliman lidera, seguido por Sorocaba e Roberto Carlos. Caliman  autor de boa parte dos hits sertanejos que explodem nas paradas.


2#7 VEJA ESSA
EDITADO POR RINALDO GAMA

Ns gostamos do nome porque significa o conjunto de letras que representa a linguagem, uma das mais importantes inovaes da humanidade, e esse  o ponto principal sob o qual organizamos a nossa busca." - LARRY PAGE, cofundador e CEO do Google, ao explicar por que a holding criada para separar os negcios da empresa foi batizada de Alphabet. O anncio da reestruturao do gigante da internet foi feito na semana passada. 

O mais triste sobre o ciberespao  que h cada vez menos chance para a surpresa. Quando voc caminha na rua, coisas que no espera podem acontecer. - RICHARD SENNETT, socilogo americano, na Folha de S.Paulo. 

Fui s o azarado da vez. - MOTORISTA DO UBER que disse ter sido atacado na capital paulista por um grupo de taxistas, falando ao jornal O Estado de S. Paulo. 

Os disparates de um palhao endinheirado no teriam maior importncia se as besteiras que (Donald) Trump espalha em sua campanha poltica no tivessem tocado num nervo do eleitorado americano e no o tivessem catapultado ao primeiro lugar entre os pr-candidatos do Partido Republicano. - MRIO VARGAS LLOSA, escritor peruano, Nobel de Literatura, ao abordar em sua coluna, publicada em vrios jornais, os ataques do empresrio  comunidade latina dos Estados Unidos. 

A publicidade do processo  o preo que se paga quando se vive em uma democracia. - SRGIO MORO, juiz da 13 Vara Federal de Curitiba, defendendo, em palestra realizada em Porto Alegre, a divulgao diria de informaes da Operao Lava-Jato.

Sempre acho que vou morrer. Na verdade, nunca acredito que eu no morri... -  CARLA BRUNI, cantora, ex-primeira-dama da Frana, comentando, bem-humorada, em O Estado de S. Paulo, o que sente ao subir no palco para fazer um show.

Ele com certeza me bateria numa luta de boxe. Numa luta sem regras, eu acredito que possa vencer qualquer um no planeta. - RONDA ROUSEY Judoca americana, campe de peso-galo feminino do UFC, provocando, no site Reddit, o compatriota Floyd Mayweather Jr., campeo mundial de boxe nas categorias meio-mdio e mdio-ligeiro. 

Vamos todos mergulhar l. - NAWAL EL MOUTAWAKEL, presidente da comisso de coordenao do Comit Olmpico internacional para a Rio 2016, procurando no deixar dvida sobre sua confiana na limpeza das guas da Baa de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas, onde ocorrero diversas provas. 

Manifestaes so normais. O que temos de evitar e a intolerncia. - DILMA ROUSSEFF, presidente da Repblica, em entrevista ao SBT. 

EPGRAFE DA SEMANA 
A pretexto das lies dos protestos dos caras-pintadas, realizados em agosto de 1992, e da situao poltica atual 
A histria  uma galeria de quadros em que h poucos originais e muitas cpias. - ALEXIS DE TOCQUEVILLE, historiador francs (1805-1859).
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3# BRASIL 198.15

     3#1 NO PAS DO PIXULECO...
     3#2 ORDENS DE CIMA
     3#3 O NEGCIO MILIONRIO DO EX-PRESIDENTE
     3#4 DE VOLTA PRA RUA
     3#5 PISTA LIVRE DE PROBLEMAS

3#1 NO PAS DO PIXULECO...
...as investigaes que comearam num pequeno posto de gasolina j atingiram cinco ministrios, duas empresas estatais, trs partidos polticos, ministros, ex-ministros, senadores, deputados e um ex-presidente da Repblica.
HUGO MARQUES E ADRIANO CEOLIN

     O MINISTRIO DO PLANEJAMENTO  conhecido por abrigar alguns dos melhores e mais competentes quadros do governo federal. Sem verbas para investimento em obras, a pasta parecia imune  cobia de determinados grupos polticos. Parecia. Na mais recente fase da Operao Lava-Jato, a Polcia Federal prendeu um operador do PT cuja funo era captar propina com os prestadores de servio ao ministrio e transferi-la para o cofre do partido e as contas de alguns companheiros  processo idntico ao da Petrobras, da Eletrobras, do Ministrio de Minas e Energia, do Ministrio das Cidades, do Ministrio da Sade, da Comunicao Social. A descoberta refora a suspeita de que podem ser muito mais amplos os limites do maior esquema de corrupo da histria brasileira. A investigao que comeou em um posto de gasolina j envolve deputados, senadores, ministros, ex-ministros e at um ex-presidente da Repblica. Pelo volume astronmico de dinheiro desviado e pelo nmero diretamente proporcional de autoridades listadas em pagamentos e recebimentos de propina, fica evidente que o governo  hospedeiro de uma estrutura criminosa organizada e espalhada por diversos rgos da administrao. 
     Depois de mais de um ano de surpreendentes revelaes em sequncia, os prprios investigadores admitem que o trabalho est apenas no comeo. Os delegados da Lava-Jato tm pela  frente um imenso desafio: identificar todas as ramificaes da gigantesca estrutura de corrupo montada pelo PT dentro de rgos de governo e esclarecer at que ponto essa organizao paralela age ou no em sintonia com o hospedeiro. Paulo Bernardo e Gleisi Hoffmann so dois expoentes do poder formal do partido. 
     A operao policial da semana passada foi batizada de Pixuleco 2, uma referncia ao apelido que o ex-tesoureiro Joo Vaccari Neto dava  propina. Desta vez foi preso o ex-vereador petista Alexandre Romano. Segundo os agentes, ele "coletou" 40 milhes de reais da empresa Consist, que prestava servio de computao ao Ministrio do Planejamento. O esquema seguia o padro ditado por Vaccari: para ganhar o contrato, a empresa concordava em superfaturar o preo de seus servios e repassar parte dos ganhos ao partido. E assim foi durante os ltimos cinco anos. 
     Os desvios comearam em 2010, quando o ministrio era comandado por Paulo Bernardo. Seguindo o dinheiro, a polcia descobriu que a propina arrecadada tinha entre os beneficirios pessoas muito prximas ao ministro e  sua esposa, Gleisi Hoffmann, ex-chefe da Casa Civil do governo Dilma. Parte do dinheiro desviado foi destinada a um escritrio de advocacia que tem como scios Guilherme Gonalves e Sacha Reck, que atuaram nas campanhas eleitorais da senadora Gleisi e tambm na defesa de Paulo Bernardo em vrios processos judiciais. O escritrio, que trabalha ainda para o diretrio regional do PT no Paran e para a Itaipu Binacional, na qual Vaccari exercia a funo de conselheiro antes de ser preso, recebeu 7,2 milhes de "pixulecos". Chama ateno uma coincidncia: o volume maior de dinheiro foi repassado em 2010, em plena campanha eleitoral. Os pagamentos de propina a Alexandre Romano, porm, continuavam at o ms passado. 
     O ex-ministro Paulo Bernardo e a senadora Gleisi Hoffmann so dois personagens de peso a compor uma relao de figures da poltica arrastados para a repblica dos pixulecos. A senadora, por exemplo, j  investigada pelo Ministrio Pblico como beneficiria de 1 milho de reais do esquema de corrupo na Petrobras. Alm dela, integram a relao de investigados Eduardo Cunha, presidente da Cmara, Renan Calheiros, presidente do Senado, e dezenas de parlamentares, ministros e ex-ministros, bem como figuras notrias, a exemplo do ex-presidente Fernando Collor. O trabalho dos delegados e procuradores da Lava-Jato promove e soterra lideranas, vem impulsionando e desestimulando determinados planos, tem minado acordos esprios com o objetivo de garantir a impunidade de criminosos. O governo e o Congresso tm se movido conforme as vrias fases da operao. Na semana passada, emergiu um novo cenrio provocado por esse comportamento pendular. 
     Desde que foi deflagrada, h dezessete meses, a Operao Lava-Jato ps sob investigao empresrios, lobistas, ex-funcionrios da Petrobras e cinquenta polticos. Numa estratgia para se contraporem s investigaes, Renan Calheiros e Eduardo Cunha passaram o primeiro semestre impulsionando projetos de apelo popular, a maioria deles contrria aos interesses do governo. A lgica era a seguinte: por terem assumido posies opostas s do governo, Renan e Eduardo estariam sendo vtimas de perseguio por parte do procurador-geral da Repblica, Rodrigo Janot, escolhido e recentemente reconduzido ao cargo pela presidente Dilma. A crise econmica e as desavenas polticas criaram condies para a chamada tempestade perfeita. Mais agressivo e com o apoio da maioria, o presidente da Cmara instaurou CPIs para investigar o governo e pavimentou o caminho para a tramitao de um eventual processo de impeachment contra Dilma a partir da rejeio das contas dela pelo Tribunal de Contas da Unio (TCU), o que estava na iminncia de acontecer. No meio do caminho, um dos delatores do petrolo acusou Cunha de ter recebido 5 milhes de dlares de propina  e tudo mudou. 
     Renan Calheiros se comprometeu a aprovar a reconduo do seu antes desafeto Rodrigo Janot para a Procuradoria-Geral da Repblica. Ele presta um servio no apenas ao governo, mas ao prprio Janot e, desconfia-se, a si prprio. Nove em cada dez polticos de Braslia apostam que Janot vai denunciar Cunha, mas no Renan. Eles farejam, mesmo que no possam provar, que houve um acrdo em que Janot  reconduzido  PGR, Renan se salva da Lava-Jato e tenta salvar o governo com a Agenda Brasil (veja a reportagem na pg. 66). 
     Sabe-se tambm que Renan agiu junto aos ministros do TCU sobre os quais ele exerce influncia  Bruno Dantas, Vital do Rego e Raimundo Carreiro  para que o tribunal concedesse ao Planalto um prazo de mais quinze dias para explicar as manobras apelidadas de "pedaladas fiscais". A votao das contas da presidente s dever ocorrer em setembro, e j se especula se Dantas, Vital do Rego e Carreiro vo votar de acordo com sua conscincia ou suas convenincias. Mesmo que o TCU impugne suas contas, isso s ter efeito ruinoso para Dilma se Renan puser o assunto na pauta.  o caso de conferir o resultado do jogo poltico. Os prognsticos so: 
     1. A indicao de Rodrigo Janot para mais um termo na PGR  confirmada pelo Senado de Renan; 
     2. Janot denuncia Eduardo Cunha e poupa Renan na Lava-Jato; 
     3. As "pedaladas fiscais" so esquecidas pelo TCU ou pelo Senado. Quem acertar os trs ganhar uma verso encadernada da Agenda Brasil com o autgrafo de Renan Calheiros. 


3#2 ORDENS DE CIMA
Ex-diretor da Petrobras revela que assinou contrato superfaturado com empreiteira para pagar dvidas da campanha do ex-presidente Lula.
ROBSON BONIN

     No incio de 2007, a Petrobras experimentava uma indita onda de prosperidade estimulada pelas reservas recm-descobertas do pr-sal. O segundo mandato de Lula estava no comeo. Com a economia aquecida e o consumo em alta, a ordem era investir. A rea internacional da companhia, sob o comando do diretor Nestor Cerver, aportou bilhes de dlares na compra de navios-sonda que preparariam a Petrobras para a busca do ouro negro em guas profundas. Em maro daquele ano, uma operao chamou ateno pela ousadia. Sem discusso prvia com os tcnicos e sem licitao, a estatal comprou uma sonda sul-coreana por 616 milhes  dlares. E, ainda mais suspeito, escolheu a desconhecida construtora Schahin para oper-la, pagando mais 1,6 bilho de dlares pelo servio. Um negcio espetacular  apenas para a empresa que vendeu a sonda e para a construtora, que tinha escassa expertise no ramo. A Lava-Jato descobriu que, como todos os contratos, esse tambm no ficou imune ao pagamento de propina a diretores e polticos. O escndalo, entretanto, vai muito mais alm. 
     Em delao premiada, o operador Jlio Camargo, que representava a Samsung na transao do navio-sonda Vitria 10.000, confessou ter pago 25 milhes de dlares em propinas a diretores e intermedirios, incluindo a o prprio Cerver. Com o esquema em torno da sonda revelado, faltava descobrir o papel da Schahin na operao. E  exatamente Nestor Cerver, preso em Curitiba e agora negociando a sua delao premiada, quem revela a parte at aqui desconhecida da histria. Em um dos captulos do acordo que est prestes a assinar com o Ministrio Pblico, o ex-diretor da rea internacional conta que os contratos de compra e operao da sonda Vitria 10.000 foram direcionados  construtora Schahin com o propsito de saldar dvidas da campanha presidencial de Lula, em 2006. E, por envolver o caixa direto da reeleio do petista, a jogada foi coordenada diretamente pela alta cpula da Petrobras. 
     Nos primeiros relatos em busca do acordo, Cerver contou que o PT terminou 2006 com uma dvida de campanha de 60 milhes de reais com o Banco Schahin, pertencente ao mesmo grupo que administrava a construtora. Sem condies de quitar o dbito pelas vias tradicionais, o partido usou os contratos da diretoria internacional para pagar a dvida da campanha. Ento presidente da estatal, Jos Srgio Gabrielli incumbiu pessoalmente Cerver do caso. O ex-diretor recebeu ordens claras para direcionar o contrato bilionrio da sonda  Schahin. Uma vez contratada pela Petrobras, a empreiteira descontou a dvida do PT da propina devida aos corruptos do petrolo. Para garantir o silncio sobre o arranjo, a Schahin tambm pagou propina aos dirigentes da Petrobras envolvidos na transao. Os repasses foram acertados pelo executivo Fernando Schahin, filho do fundador do grupo, Milton Schahin, e um dos dirigentes da Schahin Petrleo e Gs. Fernando usou uma conta no banco suo Julius Baer para transferir a propina destinada aos dirigentes da estatal para o banco Cramer, tambm na Sua. O dinheiro chegou a Cerver e aos gerentes da rea Internacional Eduardo Musa e Carlos Roberto Martins, igualmente citados como beneficirios dos subornos. 
     Alm de amortizar as dvidas da campanha de 2006, o contrato da sonda Vitria 10.000 serviu para encerrar outro assunto nebuloso envolvendo emprstimos do Banco Schahin e o PT. A histria remonta ao assassinato do prefeito petista Celso Daniel, em Santo Andr, em 2002. Durante o julgamento do mensalo, ao pressentir que seria condenado  priso pelo Supremo Tribunal Federal, Marcos Valrio, o operador do esquema, tentou fechar um acordo de delao premiada com o Ministrio Pblico. Em depoimento na Procuradoria- Geral da Repblica, ele narrou a histria que agora pode se confirmar no petrolo. Segundo Valrio, o PT usou a Petrobras para pagar suborno a um empresrio que ameaava envolver Lula, Gilberto Carvalho e o mensaleiro preso Jos Dirceu na trama que resultou no assassinato de Celso Daniel. 
     Valrio contou aos procuradores que se recusou a fazer a operao e que coube ao pecuarista Jos Carlos Bumlai, amigo pessoal de Lula, socorrer a cpula petista. Segundo ele, Bumlai contraiu um emprstimo de 6 milhes de reais no Banco Schahin para comprar o silncio do chantagista. Depois, usou sua influncia na Petrobras para conseguir os contratos da sonda para a construtora. O prprio Milton Schahin admitiu ter emprestado 12 milhes de reais ao amigo de Lula. "O Bumlai pegou, sim, um emprstimo, como tantas outras pessoas. Mas eu no sou obrigado a saber para que o dinheiro foi usado", disse recentemente  revista Piau. 
     Eivada de irregularidades, a contratao da Schahin tornou-se alvo de investigao da prpria Petrobras. A auditoria da estatal concluiu que a escolha da Schahin se deu sem "processo competitivo" e ocorreu a partir de ndices operacionais de desempenho artificialmente inflados para justificar a contratao. Os prejuzos causados pela transao em torno da Vitria 10.000 foram classificados pelos tcnicos como "problemas polticos", que deveriam ser resolvidos pela cpula da estatal. No fosse pela Lava-Jato, a trama que envolve a campanha de Lula e os contratos na Petrobras permaneceria oculta nos oramentos cifrados da estatal. A Schahin, que vira seu faturamento saltar de 133 milhes de dlares para 395 milhes de dlares durante os oito anos de governo Lula, seguiria faturando sem ser importunada. 
     O cerco, porm, est se fechando. Os nmeros das contas usadas no pagamento de propinas no exterior e at detalhes das viagens de Fernando Schahin  Sua j foram entregues pelos ex-dirigentes da Petrobras aos procuradores. Apesar dos claros sinais de fraude no processo, o ex-presidente da estatal Jos Srgio Gabrielli defendeu a compra da sonda ao depor como testemunha de defesa de Cerver na Justia. Procurados, os advogados de Cerver disseram que no poderiam se pronunciar sobre o andamento do acordo de delao com o Ministrio Pblico. Os demais citados negaram envolvimento no caso. Ao falar da ordem para beneficiar a Schahin, Cerver reproduziu a frase que teria ouvido de Gabrielli: "Veio um pedido do homem l de cima. A sonda tem de ficar com a Schahin". E assim foi feito. Cerver ainda no revelou quem era o tal "homem".  


3#3 O NEGCIO MILIONRIO DO EX-PRESIDENTE
Relatrio de rgo de fiscalizao do governo mostra que a empresa de Lula faturou 27 milhes de reais  sendo 10 milhes apenas das empreiteiras envolvidas no escndalo de corrupo da Petrobras.
RODRIGO RANGEL

     Para um presidente da Repblica de qualquer pas,  enaltecedor poder contar que teve origem humilde. O americano Lyndon Johnson mostrava a jornalistas um casebre no Texas onde, falsamente, dizia ter nascido. A ideia era forar um paralelo com a histria, verdadeira, de Abraham Lincoln, que ganhou a vida como lenhador no Kentucky. Lula teve origem humilde em Garanhuns, no interior de Pernambuco, e se enalteceu com isso. Como Johnson e Lincoln, Lula veio do povo e nunca mais voltou.  natural que seja assim. Como  natural que ex-presidentes reforcem seu oramento com dinheiro ganho dando palestras pagas pelo mundo. Fernando Henrique Cardoso faz isso com frequncia. O ex-presidente americano Bill Clinton, um campeo da modalidade, ganhou centenas de milhes de dlares desde que deixou a Casa Branca, em 2001. Lula, por seu turno, abriu uma empresa para gerenciar suas palestras, a LILS, iniciais de Luiz Incio Lula da Silva, que arrecadou em quatro anos 27 milhes de reais. Isso se tornou relevante apenas porque 10 milhes dos 27 milhes arrecadados pela LILS tiveram como origem empresas que esto sendo investigadas por corrupo na Operao Lava-Jato. 
     Na semana passada, a relao ntima de Lula com uma dessas empresas, a empreiteira Odebrecht, ficou novamente em evidncia pela divulgao de um dilogo entre ele e um executivo gravado legalmente por investigadores da Lava-Jato. O alvo do grampo feito em 15 de junho deste ano era Alexandrino Alencar, da Odebrecht, que est preso em Curitiba. Alexandrino e Lula falam ao telefone sobre as repercusses da defesa que o herdeiro e presidente da empresa, Marcelo Odebrecht, tambm preso, havia feito das obras no exterior tocadas com dinheiro do BNDES. Os investigadores da Polcia Federal reproduzem os dilogos e anotam que o interesse deles est em constituir mais uma  evidncia da "considervel relao" de Alexandrino com o Instituto Lula. 
     Fora do contexto da Lava-Jato, esse dilogo no teria nenhuma relevncia especial. Como tambm no teria a movimentao financeira da LILS. De abril de 2011 at maio deste ano, a empresa de palestras de Lula, entre crditos e dbitos, teve uma movimentao de 52 milhes de reais. Na conta-corrente que comea com o nmero 13 (referncia ao nmero do PT), a empresa recebeu 27 milhes, provenientes de companhias de diferentes ramos de atividade. Encabeam a lista a Odebrecht, a Andrade Gutierrez, a OAS e a Camargo Corra, todas elas empreiteiras investigadas por participao no esquema de corrupo da Petrobras. Essas transaes foram compiladas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), do Ministrio da Fazenda. O Coaf trabalha com informaes do sistema financeiro e seus tcnicos conseguem identificar movimentaes bancrias atpicas, entre elas saques e depsitos vultosos que podem vir a ser do interesse dos rgos de investigao. Neste ano, os analistas do Coaf fizeram cerca de 2300 relatrios que foram encaminhados  Polcia Federal,  Receita Federal e ao Ministrio Pblico. O relatrio sobre a LILS classifica a movimentao financeira da empresa de Lula como incompatvel com o faturamento. Os analistas afirmam no documento que "aproximadamente 30%" dos valores recebidos pela empresa de palestras do ex-presidente foram provenientes das empreiteiras envolvidas no escndalo do petrolo. 
     O documento, ao qual VEJA teve acesso, est em poder dos investigadores da Operao Lava-Jato. Da mesma forma que a conversa do ex-presidente com Alexandrino Alencar foi parar em um grampo da Polcia Federal, as movimentaes bancrias da LILS entraram no radar das autoridades porque parte dos crditos teve origem em empresas investigadas por corrupo. Diz o relatrio do Coaf: "Dos crditos recebidos na citada conta, R$ 9.851.582,93 foram depositados por empreiteiras envolvidas no esquema criminoso investigado pela Polcia Federal no mbito da Operao Lava-Jato". Seis das maiores empreiteiras do petrolo aparecem como depositantes na conta da empresa de Lula (veja a tabela na pg. 51). 
     O ex-presidente tem uma longa folha de servios prestados s empreiteiras que agora aparecem como contratantes de seus servios privados. Com a Odebrecht e a Camargo Corra, por exemplo, ele viajava pela Amrica Latina e pela frica em busca de novas frentes de negcios junto aos governos locais. Outro ponto em comum que sobressai da lista de pagadores da empresa do petista  o fato de que muitas das empresas que recorreram a seus servios foram aquinhoadas durante seu governo com contratos e financiamentos concedidos por bancos pblicos. Uma delas, o estaleiro Quip, pagou a Lula 378.209 reais por uma "palestra motivacional". Criada com o objetivo de construir plataformas de petrleo para a Petrobras, a empresa nasceu de uma sociedade entre Queiroz Galvo, UTC, Iesa e Camargo Corra  todas elas investigadas na Lava-Jato. No poder, Lula foi o principal patrocinador do projeto, que recebeu incentivos do governo. Em maio de 2013, ele falou para 5000 operrios durante 29 minutos. Ganhou 13.000 reais por minuto. 
     Dos 27 milhes embolsados, segundo o Coaf, o ex-presidente investiu 12,9 milhes em aplicaes financeiras e depositou outros 5 milhes em um plano de previdncia privada. Os registros do Coaf mostram ainda que Lula  um pai generoso e um amigo solidrio. Do rol de sadas de dinheiro da conta da LILS constam repasses aos filhos do ex-presidente e a alguns velhos companheiros, entre eles Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula e scio-administrador da empresa de palestras. 
     Fbio Lus, o filho mais velho de Lula, recebeu 10 milhes de reais ao vender parte da empresa de games durante o primeiro governo do pai, em um controverso negcio envolvendo uma operadora de telefonia. Outro milionrio na famlia  Lus Cludio, o filho mais novo do ex-presidente, que at pouco tempo trabalhava como auxiliar da equipe de preparadores fsicos do time de futebol do Palmeiras. Aberta por Lus Cludio em 2011 com capital social de 1000 reais e faturamento declarado de 50.000, a empresa Touchdown Promoo de Eventos movimentou, j no ano seguinte, 6,2 milhes de reais em apenas sete meses. A Touchdown organiza torneios de futebol americano e tem apenas um funcionrio registrado. Sua movimentao financeira foi considerada pelos analistas do Coaf "incompatvel com seu patrimnio, atividade econmica e capacidade financeira". Lus Cludio no foi encontrado. A LILS no quis se pronunciar.  
     Como todo homem pblico, o ex-presidente expe-se  curiosidade excessiva das pessoas comuns e  fiscalizao ainda mais incisiva das autoridades. As empreiteiras envolvidas no petrolo fizeram negcios escusos com diretores da Petrobras nomeados por Lula pelo critrio de convenincia poltica de seu governo.  da ordem do processo jurdico que as ligaes de Lula com corruptos e corruptores sejam devassadas. Isso, no entanto, no significa que o ex-presidente esteja sendo formalmente investigado, tampouco que seja culpado de algum crime. Ganhar 13.000 reais por minuto de palestra  enaltecedor para Lula, tanto quanto ter sido engraxate e torneiro mecnico e, depois, ter se erguido ao mais alto posto da hierarquia poltica do Brasil. 

LULA E OS CLIENTES DA LAVA-JATO
O Coaf registrou doze pagamentos das empreiteiras investigadas no escndalo da Petrobras  empresa do ex-presidente (valores em reais)
CONSTRUTORA NORBERTO ODEBRECHT S/A 2,8 milhes
ANDRADE GUTIERREZ ENGENHARIA S/A 1,5 milho
CONSTRUTORA OAS S/A 1,4milho
CONSTRUES E COMRCIO CAMARGO CORRA S/A 1,1 milho
CONSTRUTORA QUEIROZ GALVO S/A 857.709
ANDRADE GUTIERREZ ENGENHARIA S/A 429.498
QUIP S/A 378.209
UTC ENGENHARIA S/A 357.621
CONSTRUTORA OAS LTDA (ESTADOS UNIDOS) 342.777
CONSTRUTORA QUEIROZ GALVO S/A 337.185
CAMARGO CORRA S/A 337.185
CONSTRUCTORA OAS LTDA (COSTA RICA) 166.364
"A COMUNICAO REPORTOU MOVIMENTAO FINANCEIRA NO VALOR TOTAL R$52.333.636,00 (CRDITOS DE 27.064.401,00 E DBITOS DE 25.269.236,00), REALIZADA NO PERODO DE 04/2011 A 05/2015, NA CONTA XXX MANTIDA NA AGNCIA XXX DO BANCO DO BRASIL EM SO PAULO. LUS INCIO LULA DA SILVA E PAULO TARCISO OKAMOTTO FORAM RELACIONADOS NA COMUNICAO COMO GERENTES/DIRETORES DA L.I.L.S. PALESTRAS, EVENTOS E PUBLICAES LTDA. SEGUNDO INFORMADO PELO COMUNICANTE, DOS CRDITOS RECEBIDOS NA CITADA CONTA, R$ 9.851.582,93 FORAM DEPOSITADOS POR EMPREITEIRAS ENVOLVIDAS NO ESQUEMA CRIMINOSO INVESTIGADO PELA POLCIA FEDERAL NO MBITO DA OPERAO LAVA JATO." (TRECHO DO RELATRIO DO COAF)

FORTUNA BEM ADMINISTRADA
O relatrio do Coaf tambm mostra como o ex-presidente Lula geriu os 27 milhes de reais que faturou com as palestras. A maior parte do dinheiro foi investida em aplicaes financeiras e num plano de previdncia privada. O restante foi usado em pagamentos e transferncias para ele, seus filhos e seu scio Paulo Okamotto.
27 milhes de reais
APLICAES FINANCEIRAS 12,9 milhes
PREVIDNCIA PRIVADA 5 milhes
IMPOSTOS 3 milhes
OUTROS 1,8 milho
TRANSFERNCIAS 4,3 milhes: Lula 1,5 milho; Okamotto 1,1 milho; Lurian 385.000; Lus Cludio 209.000; Sandro 80.000, Outros repasses 1 milho.


3#4 DE VOLTA PRA RUA
Vinte e trs anos depois do 16 de agosto que selou o destino de Fernando Collor, 50 brasileiros contam a VEJA por que foram s manifestaes pelo impeachment naquela poca e os motivos que os levaram a protestar novamente, agora contra Dilma Rousseff. As crises dos governos guardam mais semelhanas ou diferenas?
MARIANA BARROS, PIETER ZAUS E KALLEO COURA

     O DOMINGO 16 DE AGOSTO FOI o comeo do fim do governo. Em duas dezenas de cidades brasileiras, centenas de milhares de pessoas saram s ruas "para protestar contra a corrupo, o abuso de poder, os privilgios, o trfico de influncia, a mentira"  assim a Carta ao Leitor de VEJA descreveu a data que entrou para a histria como "domingo negro". Calma, gente! Estamos falando de 1992, o fim da era Collor, o presidente afastado do poder por um processo de impeachment. Vinte e trs anos depois, de novo em um domingo 16 de agosto, milhares de brasileiros estaro nas ruas para protestar contra o governo, desta vez o de Dilma Rousseff. As razes para a indignao popular de 1992  "a corrupo, o abuso de poder, os privilgios, o trfico de influncia, a mentira"  so muito parecidas com as de agora. Embora 65% dos brasileiros afirmem desejar o impeachment, ningum pode prever se ele ser tambm o desfecho da crise que cerca a atual presidente. 
     Algumas das circunstncias polticas e econmicas de 1992 prevalecem em 2015. Dilma, a exemplo de Collor, tem uma taxa de reprovao quase dez vezes maior que a de aprovao. Segundo o Datafolha, 71% reprovam Dilma e apenas 8% lhe do crdito. No auge da crise, em setembro de 1992, de acordo com o mesmo instituto de pesquisa, Collor tinha 68% de reprovao, contra 9% de entrevistados ainda fiis. O Brasil de Collor assistiu  volta da hiperinflao, que passou de 1000% ao ano em 1992. O de Dilma enfrenta uma recesso que deve fazer a economia encolher quase 2%. 
     Terminam aqui as semelhanas entre os dois governos. A lista de diferenas  bem mais extensa. 
     No Collorgate, as denncias de corrupo envolviam diretamente o presidente da Repblica, acusado pelo irmo de usar um testa de ferro para extorquir dinheiro de empresrios e flagrado com um carro na garagem adquirido com dinheiro de corrupo. Hoje, no h ningum apontando diretamente o dedo para a presidente nas investigaes do petrolo  nem algo to concreto quanto um Fiat Elba a provar que ela se beneficiou direta e pessoalmente de dinheiro de propina. A segunda diferena  que o PT no  o PRN, o partido artificial de Collor com seus 28 deputados. Mais da metade deles trairia o presidente na votao do impeachment. Mesmo abaixo do volume morto, acuado pelas investigaes e com lideranas na cadeia (ou em vias de ir para l), o PT continua tendo a segunda bancada na Cmara, com 63 deputados, e a segunda maior no Senado, com treze parlamentares. Junto com os partidos da base aliada, Dilma Rousseff conta, ao menos nominalmente, com 282 dos 513 deputados, mais do que suficientes para barrar um pedido de impeachment  que exige a aprovao de 342 parlamentares, ou dois teros da Cmara. No Senado, a quem cabe dar a palavra final sobre o impedimento de um presidente, ela conta com 45 dos 81 votos. Seria muito difcil chegar aos 54 votos necessrios para afast-la. 
     O grito das ruas incendiou o Parlamento e j no dia seguinte s manifestaes de 25 de agosto de 1992 surgiu um "grupo de governabilidade" em torno do vice Itamar Franco, que, ao fim do processo, em 29 de dezembro, substituiu definitivamente o presidente afastado.  sobretudo nesse ponto que a situao de Dilma no poderia ser mais distante da de Collor. O PSDB, hoje a principal fora opositora ao governo petista, no tem uma posio fechada sobre qual a melhor sada para a crise. Mesmo a parte do fragmentado PMDB encabeada pelo vice-presidente Michel Temer, que herdaria o governo no caso de impedimento de Dilma, receia o peso do legado. H uma grande concordncia em considerar que o ps-Dilma seria um perodo mais conturbado do que foi o ps-Collor. Os muitos lderes mercenrios de movimentos sociais e os poucos fanticos podem desandar a fazer o que mais sabem: desordem e quebra-quebra.  um estado de coisas bem diverso daquele que predominava em 1992, quando a convico entre os polticos era que a sada de Collor no produziria, como no produziu, nem um suspiro de inconformismo entre a populao. 
     O Congresso que apeou Collor do governo e o que tem o poder constitucional para afastar Dilma tambm so muito diferentes. O Legislativo hoje  quase to estilingue quanto vidraa  mais de trinta parlamentares so alvo da mesma Operao Lava-Jato que acossa o governo do PT. Entre eles esto os presidentes da Cmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, ambos do PMDB. 
     A maior manifestao at agora contra o governo Dilma ocorreu em maro deste ano e, somadas as 250 cidades onde houve gente nas ruas, cerca de 2,4 milhes de brasileiros protestaram. Em So Paulo, a Avenida Paulista transbordou com mais de 1 milho de pessoas. Os movimentos de oposio que convocam as pessoas para as ruas neste domingo, 16, acreditam que vo superar numericamente os protestos de maro. Mesmo que isso no ocorra, a insatisfao popular contra Dilma e o PT no vai se estiolar. Uma pequena mas significativa mostra disso  o que dizem os cinquenta brasileiros e brasileiras que ilustram as pginas desta reportagem. Todos eles compareceram s manifestaes anti- Collor de 1992 e, agora, planejam ir aos atos anti-Dilma. 
     Em 1992, o 16 de agosto foi a fagulha que deu a ignio para o impeachment. Antes daquela data, os manifestantes, os "caras-pintadas", eram alguns poucos milhares em todo o pas. Collor provocou a ira da populao ao convocar os que chamava de "minha gente" a sair de verde-amarelo como demonstrao de apoio a ele. As multides saram de preto. Sem maioria no Congresso e rejeitado nas ruas, Collor perdeu as condies mnimas de governabilidade. Sua queda foi mais uma de tantas demonstraes histricas de que os governos no caem por ruins, caem por falta de maioria parlamentar e de apoio popular. Dilma perdeu o Parlamento e a popularidade. Se ela no recuperar pelo menos um dos dois... 

1992 - A foto de Tatiana Zaccaro, ento com 15 anos, tornou-se smbolo dos protestos: Fui porque era um momento histrico
2015 - "A corrupo continuou, e ainda por cima promovida por um partido que acreditvamos ser a soluo do problema".

"Aos 18, fui movida pelo ideal de derrubar o governo. Agora, no quero que meus filhos vivam num pas onde  normal roubar e sair ileso. Tenho vergonha de uma presidente que no sabe se comunicar." Viviane Rocha, 42.

"Eu e meus colegas fomos dispensados da aula, pegamos um nibus e fomos protestar contra o Collor. Agora  pior. Estamos  beira do colapso. Se a Dilma pensar na nao, renunciar." Andr Junqueira Zaharenko, 38.

"Em 1992, fui na onda. Agora, Dilma no respeita a diviso dos poderes, principalmente na questo oramentaria.  autoritria. O fato de ela vetar o reajuste dos servidores do Judicirio  inconstitucional." Brunella Lima, 35.

"Em 1992, eu era estagiria no frum e combinei com os colegas de irmos juntos. Vou de novo pelo mesmo motivo. No quero deixar a chama da indignao morrer." Adriana Balthazar, 45.

"A crise poltica  mais grave do que a econmica. E a classe mdia precisa perder a vergonha. No  feio trabalhar, ganhar dinheiro, criar empregos e pagar impostos." Alessandra Andrade, 38.

"Foi emocionante, indescritvel, como se eu fosse uma super-herona com o poder de mudar o pas. Quero que o Brasil acorde melhor, fora deste pesadelo." Beatriz Novaes, 38.

"Collor roubou a poupana da minha av logo depois da venda de uma casa. As manifestaes eram capitaneadas pelo PT e, agora, sero contra esse partido, que se dizia tico." Chrystian Sobania, 39.

"Em vez de reconhecer os erros, Collor ps fogo na revolta. No podemos repetir o erro de 1992, precisamos de mudanas de verdade. No  s 'Fora PT'.  'Fora Unio'." Danilo Amaral, 44.

"Fui no oba-oba. Nutria um esprito juvenil de querer ficar protestando. E o Brasil ainda precisa de mudana. Voltar s ruas ser o primeiro passo para resgatarmos a cidadania." Carla Piolo, 47.

No sei se existem polticos corretos. Mas ainda acredito no Brasil." Jos Carlos Bueno, 42.

"Eu era secretria, Collor roubou meu dinheiro. Hoje minha vontade  acabar com o PT." Vera Soares, 60.

"Desta vez, o impeachment  para mostrar que o povo pauta o Congresso." Ronald Tanimoto, 53.

"Em 1992, eu ainda me identificava com o PT, que agora entrega a meu filho um pas em crise." Paulo Moura, 55.

Fico indignado com o retrocesso do pas. A crise no  econmica,  institucional." Ricardo Sayeg, 48.

Agora, pessoas sem formao poltica querem participar. H uma diversidade maior." Mrio Nogueira, 54.

Meu pai me levou ao Anhangaba. Estamos dentro da Constituio, como em 1992." Mareia Demestres, 39.

" o mesmo sentimento. O grito, que era 'Fora Collor', ser 'Fora Dilma', 'Lula na cadeia'." Marcelo Medeiros. 66.

"Os casos de corrupo so piores e o Brasil est mais acomodado do que em 1992." Lorraine Alves, 36.

"A sada de Collor j era um fato, agora temos de lutar com mais fora." Joo Carlos Sattler Lima, 46.

"Eu, que estava ao lado do PT pedindo o impeachment de Collor, agora estou insatisfeito." Jefferson Todor, 39.

"Fui para a escola pblica por causa do Collor. Levarei meu filho para ver o que ocorre no Brasil." Janice Kuss, 38.

Oitenta por cento dos motivos para ir s ruas so os mesmos, a corrupo. 20% so ideolgicos." Roberto Melo, 51.

"Aos 19, ajudei a mobilizao no colgio. Ainda desejo ver um pas melhor, mas no sei por onde comear." Roberta Suplicy, 42.

"Votei no Lula em 1989, mas tudo pelo que lutei se perdeu, virou parte do projeto de poder do PT." Maria Imaculada Rios, 52.

"A poltica brasileira parece mercado persa, tudo se negocia. Vou para a rua contra essa forma de poltica." Marcia Gunha, 48.

"Collor acabou com a esperana. Sou a favor da Lava-Jato e do Moro. Quero mudar o sistema." Jos Luiz Pellegrini, 57.

"Dilma  muito pior que Collor, um corrupto que pegou o pas em frangalhos. Ela no governo nos afundou." Jos Eduardo Guedes, 45.

Em 1992, eu era do movimento estudantil. Agora sou da parcela que produz e paga imposto." Henrique Arruda, 44.

"A gente no conhecia as palavras impeachment, CPI e dossi at 1992. Hoje, quero um pas justo." Giovane Gama, 51.

A HISTRIA SE REPETE?
As semelhanas e as diferenas entre a crise que derrubou Collor e a que acossa Dilma.

16 AGO 1992 - Trs dias antes, Fernando Collor tinha ido  TV pedir aos brasileiros que sassem s ruas de verde e amarelo "pelo Brasil". Em resposta, a populao saiu de preto em ao menos dezessete capitais, no "domingo negro". Um dos maiores atos, no Rio, reuniu 10.000 pessoas. Foi o incio do fim do governo Collor.
2015 - H manifestaes convocadas em pelo menos duas centenas de cidades no pas. Ao contrrio de 23 anos atrs, os protestos realizados at agora j reuniram milhes.

25 AGO 1992  As manifestaes se tornaram praticamente dirias, mas o grande protesto seguinte aconteceu nesse dia, uma tera-feira. Em So Paulo, cerca de 350.000 pessoas pediram o impeachment de Collor. Pelo pas, os protestos espocaram em mais de trinta cidades.
2015  O resultado das manifestaes de domingo poder determinar o rumo da crise. Se atrarem multides, elas vo desencadear novos atos. Se murcharem em relao s anteriores, baixaro a temperatura tambm no Congresso. 

26 AGO 1992 - Uma CPI instalada em 1 de junho, a partir de uma entrevista de Pedro Collor a VEJA, concluiu pela incriminao do ento presidente - o relatrio foi aprovado por 16 votos a 5. Collor, que antes acusava os adversrios de buscar um "terceiro turno", passa a falar em "golpe". 
2015 - No h uma CPI no Congresso que investigue diretamente a presidente nem, at agora, um delator como Pedro Collor, que revelou em detalhes o esquema criminoso do irmo-presidente. 

1 SET 1992 - O presidente da OAB, Marcello Lavenre, e o da Associao Brasileira de Imprensa, Barbosa Lima Sobrinho, apresentaram  Cmara um pedido de impeachment de Collor. O presidente da Cmara, Ibsen Pinheiro, deu andamento ao processo.
2015 - J foram apresentados catorze pedidos de impeachment na Cmara, nenhum deles com a representatividade daquele protocolado pela OAB e pela ABI. Quatro j foram arquivados por no cumprir os requisitos mnimos. 

29 SET 1992 - Com 441 votos a favor, 38 contra e 1 absteno, a Cmara aprovou a abertura do processo de impeachment. Na votao, por ordem alfabtica, desde a letra A antigos aliados votaram contra Collor. Na letra O, at Onaireves Moura (PTB-PR), que havia oferecido um jantar de apoio ao presidente dias antes, votou contra ele. 
2015 - Para que o impeachment seja aceito, so necessrios os votos de dois teros dos 513 deputados - no papel, Dilma tem 282 deputados. Ou seja, se o processo chegar a esse ponto, ao menos 111 parlamentares precisariam trair a presidente. 

2 OUT 1992 - Itamar Franco, o vice, assumiu a Presidncia. A comemorao pela queda tomou pelo menos duas dezenas de cidades e reuniu cerca de 500.000 pessoa. 
2015 - O tempo  o senhor da razo.

29 e 30 DEZ 1992 - O Senado confirmou, por 76 votos a 3, o impeachment de Collor. Ele ainda tentou renunciar no meio da votao, para no ter os direitos polticos cassados por oito anos, mas a manobra no foi aceita. 
2015 - O tempo  o senhor da razo.

COM REPORTAGEM DE CECLIA RITTO, RENATA LUCCHESI E JOO PAULO MARTINS.


3#5 PISTA LIVRE DE PROBLEMAS
O Ministrio Pblico conclui que foi tudo legal na obra do aeroporto de Cludio (MG) e arquiva as investigaes sobre o caso levantado contra Acio durante a campanha.

     Nenhuma acusao "colou" tanto no senador Acio Neves (PSDB) durante a campanha quanto a de que, quando era governador de Minas Gerais, havia mandado construir um aeroporto em uma fazenda de um tio, Mcio Tolentino, no municpio de Cludio, perto de uma propriedade em que o tucano costumava descansar. Para completar, as chaves do lugar permaneceriam nas mos de parentes dele. Na semana passada, o Ministrio Pblico de Minas chegou  concluso de que no era nada disso e determinou o arquivamento do caso. O inqurito tinha sido aberto a pedido do PT, que solicitou  promotoria que apurasse as razes da construo do aeroporto e se tinha havido superfaturamento na obra, que custou 14 milhes de reais. Outra investigao j havia sido feita  e tambm arquivada , mas os promotores reabriram o caso a pedido dos petistas. Novamente a concluso foi que no houve irregularidades na obra. O arquivamento ainda deve ser homologado pelo Conselho Superior do Ministrio Pblico. 
     O relatrio dos quatro promotores que investigaram o caso rebate uma a uma as acusaes. Segundo eles, a obra do aeroporto foi feita "seguindo rigorosos requisitos tcnicos", e no para beneficiar a famlia de Acio. Como o tucano disse na poca, a construo fazia parte de um programa para implementar dezenas de aeroportos regionais.  
     A desapropriao da fazenda do tio, para a posterior construo da pista, tambm se deu por um valor justo, dizem os investigadores. Tambm est comprovada, afirmam, a "evidente ausncia de elementos mnimos indicativos de superfaturamento no preo da obra executada no aerdromo de Cludio". Ou seja, nenhuma das acusaes ficou de p. Restava, ainda, a questo das chaves. Em depoimento ao Ministrio Pblico, o prefeito da cidade informou que um convnio firmado em julho de 2014 entre a prefeitura e o governo mineiro delegou ao municpio a administrao do aeroporto. "As chaves do porto esto sob a guarda do municpio", disse. 
     A situao do aeroporto, portanto,  inteiramente regular, tanto a sua construo quanto a sua operao. O PT vai ter de procurar outro flanco para atacar Acio. Na questo do aerdromo de Cludio, a pista est liberada de irregularidades. 
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4# ECONOMIA 19.8.5

A SADA  LOGO ALI
Foi preciso o pas ficar  beira do abismo para o Senado propor uma agenda contra a crise: A retomada, porm, ainda no passa de miragem.
MARCELO SAKATE E BIANCA ALVARENGA

     Os estouros no oramento em obras pblicas andam de mos dadas com a corrupo, da mesma maneira que o uso poltico das estatais  a razo da existncia dos propinodutos. O diagnstico  bvio, mas nunca resultou em um tratamento efetivo dessa doena. Parte das propostas apresentadas na semana passada por Renan Calheiros, presidente do Senado, so projetos de lei e emendas constitucionais que, se um dia vierem a entrar em vigor, podero inibir as prticas mais evidentes de corrupo. A segunda parte das propostas, cujo conjunto est sendo pomposamente chamado de Agenda Brasil, se destina a tentar diminuir os obstculos aos investimentos, dar maior previsibilidade s contas pblicas e tornar a mquina do Estado mais eficiente. Aqui tambm os diagnsticos e os tratamentos so bem conhecidos  s que nunca foram aplicados. Um levantamento feito por VEJA com a ajuda de especialistas mostra que a fragilidade dessa agenda  no diminuir a enorme dvida pblica e ser tmida no corte dos gastos de governo  o que seriam as mensagens mais claras dadas aos investidores de que o Brasil  vivel e confivel. 
     Nenhum dos analistas consultados disse esperar que o governo mais impopular da histria recente e um Congresso em convulso possam fazer em meses aquilo que nunca fizeram em anos. As negociaes da semana passada que envolveram Joaquim Levy, ministro da Fazenda, e os senadores ligados a Renan tiveram pelo menos o mrito de pr em pauta alguns dos reais e grandes problemas da economia brasileira. Antes, era sacrilgio at mesmo admitir que o Brasil tem problemas, e pecado mortal reconhecer que eles foram em grande parte criados pela poltica irresponsvel e eleitoreira da presidente Dilma Rousseff em seu primeiro mandato. 
     "Um dos principais anseios da sociedade  o combate  corrupo. Existem quase 300 projetos no Congresso que tratam dessa questo, mas nenhum foi incorporado pela Agenda Brasil", diz Gil Castello Branco, da ONG Contas Abertas. Para o economista Mansueto Almeida, que colaborou no programa do candidato Acio Neves, as medidas so muito genricas e no atendem s demandas agudas do momento. Disse ele: "Parece um programa de governo, mas de um governo forte, com uma base poltica ampla, organizada e leal no Congresso.  uma agenda extremamente ambiciosa para um governo to enfraquecido". Mansueto tem razo. Nem sequer a presidente Dilma manifestou apoio incondicional s propostas. Para piorar as coisas, o grande foco de resistncia ao plano no Congresso vir do prprio PT. Assim fica fcil depreender que toda a encenao da semana passada em torno das propostas visou a tentar dar uma resposta  insatisfao popular que ter neste domingo, 16, mais um dia de ebulio nas ruas das grandes cidades brasileiras. 
     "Mudar a qualidade da educao depende de gesto, e no de aumento de gastos ou de uma nova carta de princpios", critica Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Polticas Pblicas do Insper. Ele destaca que a agenda passou ao largo daquilo que se consagrou internacionalmente como o grande promotor da qualidade na educao: a meritocracia, com critrios claros e mensurveis para o repasse de recursos com base no desempenho. 
     A proposta de restaurar a independncia das agncias regulatrias, que pareceu, a princpio, ser muito positiva, no resiste a uma segunda leitura. "Continua existindo o risco de intromisso poltica parecida com a que j acontece nas estatais", diz Cristopher Vlavianos, presidente da gestora e comercializadora de energia Comerc. 
     A Agenda Brasil foi vendida como salvao da ptria e resposta racional  pauta de projetos postos em votao pelo deputado Eduardo Cunha, presidente da Cmara. Exagero retrico. Os projetos aprovados na Cmara passam sempre pelo crivo do Senado. Dilma pode vetar, como tem feito, as decises dos deputados que causem impacto fiscal insuportvel. O mais patritico seria Renan e Cunha acertarem os ponteiros e juntarem foras para resolver os grandes e reais problemas imediatos do Brasil: a dvida-bomba e os gastos explosivos. 

A AGENDA BRASIL
A maior parte das medidas apresentadas j estava em discusso. As dificuldades esto em aprov-las e impedir que seus objetivos sejam desfigurados.

ORAMENTO
SIMPLIFICAO TRIBUTRIA
Proposta: reformar o ICMS e o PIS/Cofins, reduzindo o nmero de alquotas.
Objetivo: descomplicar o planejamento dos negcios e acabar com a guerra fiscal entre os estados.
Viabilidade: depende de acordo com os governadores, que temem perder receitas.

CONTAS PBLICAS
Proposta: criao do conselho de gesto fiscal e da instituio fiscal independente, alm de normas para restringir o atraso no pagamento de contas.
Objetivo: ampliar a fiscalizao e o controle dos gastos federais, coibir a maquiagem contbil e o desperdcio de recursos com projetos mal elaborados.
Viabilidade: o conselho era previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal, mas nunca houve vontade poltica para torn-lo realidade.

ENGESSAMENTO DO ORAMENTO
Proposta: desvincular a receita oramentaria de despesas obrigatrias e dar flexibilidade ao gasto pblico.
Objetivo: ampliar a margem de manobra do governo para gerenciar o oramento.
Viabilidade: sade e educao so as duas reas que mais se beneficiam da obrigatoriedade de gastos.

REFORMA DA PREVIDNCIA
Proposta: definio de idade mnima para a aposentadoria.
Objetivo: adequar as exigncias ao aumento da expectativa de vida do brasileiro.
Viabilidade: a medida enfrenta resistncia histrica do PT.

EFICINCIA DO GOVERNO
MAIOR RIGOR NAS ESTATAIS
Proposta: criao da Lei de Responsabilidade das Estatais.
Objetivo: reduzir a interferncia poltica nas empresas, seguindo critrios tcnicos para a indicao de diretores e conselheiros.
Viabilidade: o governo perder poder e dever se posicionar contra mudanas significativas. O Senado sairia fortalecido, porque seria o responsvel por aprovar as indicaes. Nisso, enfrentar a oposio da Cmara.

MQUINA PBLICA
Proposta: cortar para no mximo vinte o nmero de ministros e diminuir tambm a estrutura das pastas, eliminando cargos comissionados. 
Objetivo: dar mais agilidade  tomada de decises e enxugar gastos administrativos. 
Viabilidade: a concesso de cargos  uma das principais armas de barganha do Executivo, e os prprios congressistas resistiro a diminuir o nmero de pastas e postos a ser ocupados.

INVESTIMENTOS
OBRAS PBLICAS
Proposta: apertar as regras nos contratos de concesso para evitar o estouro de prazos e do oramento nas obras pblicas. 
Objetivo: dar previsibilidade e segurana aos contratos, atraindo um maior nmero de investidores. 
Viabilidade: ser difcil chegar a uma frmula que agrade a todos. Polticos e empreiteiras que lucram com a manipulao dos contratos vo oferecer resistncia.

AGNCIAS REGULADORAS
Proposta: dar mais independncia de atuao e seguir critrios tcnicos na indicao de seus diretores. Os senadores passariam a ser responsveis por avaliar as decises tcnicas da agncia. 
Objetivo: reduzira interferncia do governo nas decises, transferindo parte do poder ao Senado. 
Viabilidade: o governo poder resistir, caso o Senado ganhe o poder de exercer influncia plena sobre as agncias. 

TERCEIRIZAO 
Proposta: regulamentar a atuao dos funcionrios terceirizados e ampliar esse tipo de contratao para todas as funes. 
Objetivo: diminuir os custos com mo de obra e reduzir a enxurrada de processos que chegam  Justia do Trabalho. 
Viabilidade: o projeto passou na Cmara e conta com o apoio do setor privado. Mas lideranas sindicais ligadas ao governo so contra. 

DESBUROCRATIZAO DOS LICENCIAMENTOS 
Proposta: simplificar as regras de licenciamento ambiental. 
Objetivo: evitar atrasos em projetos considerados essenciais para o governo. 
Viabilidade: a ideia  to urgente quanto antiga. Haver forte resistncia do Congresso. Mesmo se aprovada, seria uma lei de difcil aplicao, a menos que se mexa na estrutura precria dos rgos fiscalizatrios - nos quais se encontra o foco de atrasos. 

GASTOS SOCIAIS 
EDUCAO 
Proposta: as medidas so vagas, como condicionar a liberao dos recursos do Fies e do Pronatec a critrios de desempenho regional e qualidade das instituies. 
Objetivo: aprimorar a qualidade do ensino. 
Viabilidade: haver disputas acirradas para acomodar os interesses regionais e os das instituies de ensino. 

SADE 
Proposta: restringir as liminares que obrigam o Estado e os planos de sade a cobrir procedimentos ou tratamentos no homologados pelo SUS. Facilitar o ressarcimento ao SUS por atendimentos a usurios de planos de sade que so realizados na rede pblica. 
Objetivo: diminuir os gastos da rede de sade e reduzir as disputas judiciais. 
Viabilidade: depender da redao final dos projetos. As empresas da rea de sade esto entre as maiores financiadoras de campanhas polticas do pas. O PT e as entidades de defesa dos consumidores so historicamente contrrios a cortes em despesas na rea. 
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5# INTERNACIONAL 19.8.15

UMA AJUDA PARA O INIMIGO
A Turquia entra na luta contra o Estado Islmico, mas, em vez de combat-lo, bombardeia as milcias curdas.
NATHALIA WATKINS

     O Oriente Mdio no  para amadores. Potncias ocidentais evitam a todo custo meter-se em conflitos na regio porque sabem que aliados de ocasio podem mais tarde tornar-se inimigos poderosos. Outro risco  ver seus parceiros matando-se entre si. Os Estados Unidos esto tendo, mais uma vez, essa amarga experincia na Sria e no Iraque. No fim de julho, os americanos comemoraram a entrada da Turquia na luta contra o grupo terrorista Estado Islmico (EI), tambm conhecido como Isis. O motivo por trs da deciso foi um atentado reivindicado pelo EI que matou 32 jovens em 20 de julho na cidade turca de Suruc, na fronteira com a Sria. O fim da passividade do presidente turco Recep Erdogan prometia dar um reforo inestimvel  coalizo de mais de sessenta pases contra o EI, iniciada h um ano, porque, entre outras vantagens, permite a utilizao de uma base area mais prxima dos alvos. Quando os caas turcos comearam a lanar suas bombas, contudo, ficou claro que travavam outra guerra. No intervalo em que realizaram apenas trs ataques contra o Estado Islmico, fizeram mais de 300 bombardeios contra o Partido dos Trabalhadores do Curdisto (PKK), considerado um grupo terrorista curdo, e sua vertente sria, as Unidades de Proteo Popular (YPG, na sigla em curdo). O PKK e as YPG so os mais eficientes inimigos do Estado Islmico tanto na Sria quanto no Iraque. Deve-se a eles o fato de boa parte do territrio ao longo da fronteira da Sria com a Turquia ainda no ter cado nas mos do EI. 
     Embora compartilhem o medo do terrorismo e sejam membros da Organizao do Tratado do Atlntico Norte (Otan), americanos e turcos tm viso muito diferente sobre qual  o maior mal a ser combatido na atual conjuntura da guerra na Sria. Para os primeiros, no h dvida de que o maior perigo, inclusive para a segurana interna dos Estados Unidos e seus aliados, vem do EI. Para os turcos  e, mais ainda, para Erdogan , interessa manter quente o enfrentamento com as milcias curdas, que sonham em abocanhar parte do territrio turco para a criao de um Estado independente. Nas eleies parlamentares realizadas em 7 de junho, o Partido Justia e Desenvolvimento (AKP), de Erdogan, perdeu a maioria no Parlamento pela primeira vez desde 2002. Seu fracasso se deveu principalmente aos curdos do Partido Democrtico do Povo (HDP), que conquistaram oitenta dos 550 assentos. Muitos cidados turcos que no so curdos votaram no HDP para conter o autoritarismo crescente de Erdogan. Deu certo. O presidente viu seus planos de mudar a Constituio para ganhar mais poderes ser frustrados e tem a misso de criar um governo de coalizo at o dia 23 de agosto. 
     Se as negociaes para formar um governo no forem bem-sucedidas, o pas poder retornar s urnas em novembro. Para evitar um segundo fiasco eleitoral, Erdogan comeou uma campanha para desprestigiar o HDP e ameaou investigar os polticos curdos  por ligaes com as milcias. Apesar de todos eles falarem em nome dos curdos, o partido HDP no ergueu a bandeira tnica na ltima campanha. Seus membros discursaram principalmente a favor do crescimento econmico, da democracia e contra o terrorismo. Mas h dvidas sobre suas relaes com os terroristas. O advogado Selahattin Demirtas, um dos lderes do HDP,  irmo de Nurettin Demirtas, que est lutando no Iraque com o PKK. Selahattin diz que eles no se falam h tempos. Erdogan coloca todos no mesmo saco. Ao bombardear as milcias curdas no Iraque, na Turquia e na Sria, ele pretende exaltar o nacionalismo turco e  enfraquecer o partido que representa os curdos. Outro motivo que pode ter levado Erdogan a mirar o PKK e as YPG  o medo de que o separatismo curdo saia fortalecido da luta contra o EI. 
     H razoveis chances de que Erdogan consiga o que quer. Um dos valores inerentes  Turquia moderna criada pelo general Mustafa Kemal Atatrk (1881 a 1938)  o papel do lder na defesa contra as ameaas de desintegrao territorial. "A retrica que usa inimigos externos para unir o pas e exacerbar o nacionalismo  antiga e funciona desde o fim do Imprio Otomano", diz a  antroploga alem Jenny White, da Universidade de Boston, nos Estados Unidos. Culturalmente,  plenamente aceitvel entre os polticos e militares ser contrrio  independncia dos curdos. Os atentados do PKK contra policiais e militares turcos s do ainda mais argumentos a Erdogan. O conflito entre o Estado turco e as milcias j dura trs dcadas e matou cerca de 45.000 pessoas. O processo de paz iniciado h dois anos est, agora, ameaado. 
     A Turquia demorou para fazer algo contra o EI porque via nos radicais islmicos aliados naturais contra o regime do srio Bashar Assad. Por muito tempo, o EI obteve financiamento, armas e jihadistas pelo territrio turco. A ajuda americana mudou o equilbrio da guerra a favor das YPG. Na tela de tablets, os guerrilheiros curdos indicam a localizao dos membros do EI, que, minutos depois, so bombardeados pelos caas da coalizo. Os americanos tambm lanaram dos cus 27 caixas com armas e munies para os seus parceiros em terra. A atuao da Turquia contra os inimigos do EI, portanto, complica ainda mais a situao na guerra da Sria. E s os viles da vez saem ganhando. 
COM REPORTAGEM DE PAULA PAULI
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6# GERAL 19.8.15

     6#1 GENTE
     6#2 POLCIA  QUANDO QUER, ELA FUNCIONA
     6#3 SADE  A CONTA CERTA PARA EMAGRECER
     6#4 PERFIL  ELA CRIA DOLOS

6#1 GENTE
JULIANA LINHARES, Com Fernanda Allegretti e Karina Morais

A CULPA NO  (S) DA BAB
BEN AFFLECK e JENNIFER GARNER foram casados por dez anos. Na reta final do casamento, o ator estava embalado por alguns de seus grandes prazeres: jogo, gor e farra. Eis que, nesse cenrio, surge a linda bab CHRISTINE OUZOUNIAN, para cuidar dos trs filhos do casal. E o roteiro de filme se desenrola: numa das cenas, Affleck vai para Las Vegas, de jatinho, com Christine a bordo. No voo, d carona a Tom Brady, o marido de Gisele Bndchen, que, descontrado, deixa a moa posar com os anis que ele ganhou em vitrias esportivas. Jennifer, j ciente de que o marido-menino est sob os cuidados da bab, pede a separao, no fim de junho. De l para c, Christine j foi "flagrada", numa noite, levando uma garrafa de champanhe para Affleck, hospedada num hotel caro, perto da casa dele, e guiando um carro conversvel, novinho. No Twitter, tascou: "Ela  s uma garota e est em chamas". Jude Law, Robin Williams, Arnold Schwarzenegger e Rob Lowe j caram no mesmo pecado. Estaramos cercados por babs diablicas ou os garotos  que pedem palmada?

UMA MENINA MUITO ESPECIAL 
Foram 380 testes at que o cineasta David Schurmann, um dos integrantes da famlia de navegadores Schurmann, encontrasse MARIANA GOULART para fazer o papel de sua irm, Kat, que morreu, vtima de aids, aos 13 anos. O filme Pequeno Segredo contar a histria da menina, que foi adotada pela famlia  aquela que passa temporadas nos oceanos de cinco continentes , depois que seus pais morreram da mesma doena. "J tinha aprendido sobre aids na escola. Fiquei um pouco nervosa, mas depois me emocionei muito com a Kat. Era uma menina especial", diz Mariana, que deu  sua cachorrinha o nome da personagem. A atriz Julia Lemmertz, que faz o papel da matriarca da famlia, tambm se emocionou: " uma histria de malucos adorveis e corajosos". O filme ser exibido tambm em outros pases latino-americanos. 

A SESSENTONA ESPETACULAR 
Mulheres jovens muito bonitas costumam manter algo do esplendor na fase madura da vida, mas o que acontece com BRUNA LOMBARDI, 63 anos,  difcil de explicar, at porque os queixos, a esta altura, j esto l embaixo. Mas ela, a prpria Bruna, tenta: "A luz estava boa. Foi meu marido quem fez essa foto e ele adora me fotografar. At uso Photoshop, mas essa no precisou", diz ela. "E eu me arrumei. Fiz cabelo, maquiagem e coloquei camisola. O curioso  que eu acho essa imagem discreta. Tenho outras fotos muito mais sexy", conta Bruna, que pode coloc-las num livro de memrias que ela est preparando. Alm dele, em 2016, a atriz e produtora tambm quer lanar outro, de poemas, chamado Clmax. "O que d ttulo ao livro fala sobre orgasmo." Ah, Bruna Patrizia Romilda Maria Tereza (no sabia que esse  o nome dela?), vai ter fila na livraria. 

EM VERSO PARA OS ALTINHOS 
Se tudo correr conforme o planejado, o novo programa de XUXA deve reagir s queixas clssicas de seus crticos; em suma, de que ela fala, veste-se e trata seu pblico como criana. No que diz respeito ao figurino, Xuxa conta: "Sou uma mulher de 52 anos e tenho de usar o que me cai bem. Terninhos sero uma boa pedida". Sobre as entrevistas com os convidados, adianta: "Teremos um quadro em que vou perguntar sobre a intimidade das pessoas; afinal, o programa passar s 22h30, horrio em que o assunto sexo  permitido". E, sobre a manuteno da beleza, a coisa , definitivamente, de gente grande: "Fao tudo o que a dermatologista manda. Ela tem mquinas incrveis. 


6#2 POLCIA  QUANDO QUER, ELA FUNCIONA
Em 72 horas, a polcia do Rio desmantela o comando de duas das trs faces criminosas do estado. Para o efeito durar, ela precisa fazer agora uma limpeza na tropa.
LESLIE LEITO

     Quem chega ao Rio de Janeiro pela Via Dutra avista o pontilhado de favelas sobre ruelas labirnticas conhecido como Costa Barros. Ele no tem nem de longe a fama nacional da Rocinha ou do Complexo do Alemo, mas ali esto encasteladas hoje as trs faces que comandam o crime fluminense. As quadrilhas transformaram aquele naco da cidade em QG justamente depois que o estado implantou Unidades de Polcia Pacificadora (UPPs) e as afastou dos territrios mais visados de onde pilotavam suas aes. Portanto, elas s mudaram de endereo, mas no de meio de vida: praticam roubos de carga, sequestros, trfico de armas e de drogas  tudo sob os olhos que a polcia cerra mediante vultosas propinas. Nos ltimos dias, porm, o maior bunker do crime carioca tremulou, sofrendo baixas que, ao menos a curto prazo, estancam a escalada dos marginais. No sbado 8, uma operao que envolveu todas as polcias resultou na morte de Celso  Pinheiro Pimenta, o Playboy, 33 anos, o bandido mais procurado do pas. Na tera-feira 11, foi a vez de o Batalho de Operaes Policiais Especiais (Bope) encarcerar os integrantes da alta cpula do Comando Vermelho. 
     Os dois episdios, que romperam por ora com a sucesso de ms notcias na segurana pblica fluminense, no foram fruto de um plano articulado, segundo VEJA apurou. A captura de Playboy, o chefo da Amigos dos Amigos (ADA), vinha sendo engendrada havia meses. O marginal ganhou visibilidade em uma srie de ataques em que zombava da lei, e virou figura incmoda. Foi a PM que obteve de um informante o exato paradeiro daquele que se tornou um dos mais temidos traficantes da cidade, e acionou a ajuda das polcias civil e federal. Mas deixou de fora o Bope, por uma razo que ficou restrita aos bastidores. De acordo com investigaes, pesa sobre certos membros da tropa de elite do Rio a suspeita de que eles fariam o cerco de segurana a Playboy em troca do pagamento de altos cachs. A resposta do Bope, que fazia tempo tambm monitorava a rea, veio em trs dias, com a priso da cpula do Comando Vermelho. VEJA obteve a informao de que o cabea do CV, Ricardo Chaves, o Fu, ainda tentou comprar a liberdade do grupo sem medir os cifres. A oferta era de 4 milhes de reais em espcie. Os agentes do Bope declinaram, e a turma foi para a cadeia. 
     As aes contra duas poderosas clulas criminosas do Rio expuseram seu conhecido poderio blico. S com os integrantes do CV foram encontrados quatro fuzis e uma metralhadora .50 fabricada nos Estados Unidos, a primeira do gnero vista no Rio. A polcia sabe que ela veio do Paraguai. Sabe tambm que Costa Barros abriga um arsenal de cerca de 500 fuzis, parte fornecida pelos prprios homens da lei, que os desviam dos quartis  e cobram caro por isso. A corrupo policial  base fundamental para que os criminosos faam dessa regio da cidade sua propriedade, ditando regras e amparando-se no assistencialismo e no terror. Playboy era naturalmente benquisto pela banda podre da polcia que alimentou por quase uma dcada. Ela recolhia todo ms de sua gangue mais de 100.000 reais, que eram transportados em viaturas,  luz do dia, em troca da liberdade da quadrilha. Quando Playboy, o marginal que emergiu da Zona Sul para o alto-comando do crime, morreu, policiais disseminaram uma enxurrada de mensagens de luto na rede. "Saudades eternas", diziam, ironicamente. 
     Para que o efeito do golpe sobre duas das grandes clulas criminosas do estado se torne duradouro,  preciso combater os homens de farda que se bandeiam para o outro lado e ir muito mais fundo nas investigaes. As quadrilhas j repuseram os chefes e tm dado seguidas provas de que se sentem livres para agir  vontade, inclusive em domnios supostamente pacificados. Apenas neste ano, registrou-se mais de uma centena de tentativas de homicdio contra PMs nas UPPs, deixando um saldo de sete mortos e 73 feridos. Numa das favelas do Complexo do Alemo, a sede da UPP foi toda lacrada, sobrando nas paredes apenas buracos de dimetro suficiente para apoiar o cano dos fuzis dos policiais em caso de confronto. Como se v, esta guerra est longe de acabar. 


6#3 SADE  A CONTA CERTA PARA EMAGRECER
O rgo americano de incentivo a pesquisas mdicas criou a mais eficiente calculadora para planejar a perda de peso. Saiba nesta reportagem como ela funciona e baixe ferramenta nas edies para tablets e iPhone de VEJA. 
CAROLINA MELO

     "CERTA VEZ, REDUZI UM GORDO enorme a um tamanho moderado, dentro de um breve perodo. Eu o fiz correr todas as manhs at suar profusamente. Fazia ento com que fosse esfregado com fora e tomasse um banho quente (...). Algumas horas depois, eu lhe permitia comer livremente. E, por fim, fazia-o trabalhar." A afirmao, um tanto quanto sem jeito, no avesso do modo politicamente correto de falar, pede absolvio sabendo-se ter sido escrita pelo mdico e filsofo grego Cludio Galeno (129-216). Serve para demonstrar que a preocupao com os quilos a mais, o drama do ganho de peso,  ancestral, tem a idade da civilizao. O que faz emagrecer de forma mais eficaz? Fechar a boca? Entupir-se de remdios? Esfalfar-se na academia? Sabe-se que a santssima trindade da dieta  controle da comida, medicamentos e exerccios fsicos   incontornvel, e do casamento dos trs recursos resulta um corpo mais saudvel. Aquilo a que a cincia ainda no respondeu com certeza, e que paira no campo das investigaes,  como determinar a prevalncia de um ou outro comportamento contra o sobrepeso. Diz o endocrinologista Antonio Carlos do Nascimento, de So Paulo: "Cada  organismo reage de forma diferente aos tratamentos para emagrecer". 
     Tomem-se como referncia as estatsticas brasileiras. Dos 50 milhes de homens e mulheres em guerra com a balana, cerca de 30% no conseguem voltar  boa forma apenas com mudanas no estilo de vida: alimentao adequada e corte do sedentarismo. Eles esto condenados a desajustes biolgicos hereditrios, vetores de um ritmo metablico mais lento do que o normal. Sem medicamentos, portanto, muito provavelmente no perdero peso. Sim, o restante emagreceria reduzindo o consumo calrico ou adotando uma atividade regular  mas pouqussimos tm fora de vontade para comer menos ou conseguem tempo para calar tnis. E assim caminha a humanidade, com ndices de obesidade sempre em ascenso. O fundamental, portanto,  saber que somos ns e nossas circunstncias. No existe dieta mgica. Mas no h como comear um controle calrico sem ter a noo exata do que vai pelo corpo. Medir, e a partir da aferio estabelecer uma estratgia,  o primeiro, monumental e inovador passo. 
     Os Institutos Nacionais de Sade (NIH, na sigla em ingls), o rgo responsvel pelo incentivo de pesquisas mdicas nos Estados Unidos, acabam de desenvolver uma calculadora que planeja o limite de consumo calrico dirio propcio ao emagrecimento a partir de informaes detalhadssimas dadas pelo usurio.  a Body Weight Planner (planejadora de peso corporal). VEJA firmou parceria com os NIH e oferece a calculadora, evidentemente traduzida para o portugus, nas edies para tablets e iPhone.  ferramenta para mudar o tom da prosa em torno das dietas. O extraordinrio, ressalve-se,  a possibilidade de fornecer informaes especficas e obter respostas absolutamente individuais. Um dos caminhos para tanta preciso  o aprofundamento dos dados solicitados. H quatro etapas a ser seguidas. Na primeira, o usurio anota peso, sexo, idade e altura. As informaes so cruciais para que o programa reconhea o tipo de metabolismo em questo. Sabe-se que a quantidade de gordura  diferente no homem e na mulher. O organismo feminino tem 50% mais tecido adiposo que o masculino. Por isso, um homem e uma mulher com o mesmo peso necessitam de uma dieta diferente para mant-lo  ela dever consumir 10% menos calorias (veja o quadro). Nessa mesma etapa, a calculadora pede um olhar sobre a atividade fsica realizada, como o hbito de praticar esportes. Nesse ponto tambm se define o nvel de esforo fsico que caracteriza a rotina de trabalho  leve, mdio ou pesado. No segundo passo, o usurio informa o peso que pretende atingir e o tempo para alcan-lo. No terceiro, a calculadora sugere mudanas na atividade fsica (de caminhadas leves  prtica diria de natao) e ainda pede indicaes do real comprometimento com a nova vida. Por fim, o resultado: a quantidade mxima de calorias a ser consumida para emagrecer. 
     A Body Weight Planner foi construda a partir de estudos conduzidos entre os anos de 2003 a 2011, avaliados por uma equipe de pesquisadores de instituies de ensino de ponta, como as universidades Harvard e Columbia. Ao longo de oito anos, estatsticos, bilogos, matemticos e fisiologistas criaram algoritmos capazes de interpretar e cruzar as informaes fornecidas pelos usurios. No incio, a calculadora foi elaborada para ser usada apenas por pesquisadores. E, mesmo sem divulgao alguma, o recurso fez imenso sucesso. "Em quatro anos, 2 milhes de pessoas haviam acessado a ferramenta", disse a VEJA o fisiologista e matemtico Kevin Hall, do Instituto Nacional de Diabetes e Doenas Digestivas e Renais dos NIH, coordenador do grupo de pesquisa da Body Weight Planner. A equipe de Hall, ento, decidiu torn-la mais didtica, para que um nmero ainda maior de pessoas pudesse acessar o recurso que VEJA agora oferece. 
     A nova calculadora quebra um paradigma na medicina. At agora, na maioria dos consultrios de endocrinologistas, o clculo para emagrecer estava ancorado em raciocnios ligeiros, como a badalada e frgil "conta das 500 calorias". O clculo: da quantidade de calorias necessrias para manter o peso ideal, subtraem-se 500 delas. Uma mulher de 30 anos, por exemplo, deve consumir cerca de 2000 calorias dirias. Para emagrecer, seriam 1500, tirando da mesa algo como um prato e meio de macarro  bolonhesa. Em relao  prtica de atividade fsica, ouve-se quase sempre a mesma cantilena: "Faa regularmente exerccios fsicos moderados, de preferncia os aerbicos, uma hora por dia". A lgica toda soa correta. Mas desconsidera detalhes definidores do sucesso de um regime. Eis o pulo do gato da calculadora americana, a investigao primorosa sobre o tipo de atividade fsica que o usurio pratica e se prope a manter ou aprimorar, at mesmo em situaes cotidianas, no trabalho ou em casa, com perguntas como: "Voc fica sentado no computador o dia inteiro?", "Usa bicicleta para se locomover?". Faz toda a diferena permanecer sentado ou no. 
     A relao direta entre exerccio fsico, sade e queima de calorias comeou a ser estudada com profundidade apenas no fim da dcada de 60  depois, portanto, da evidente constatao de que  fundamental fechar a boca, impresso intuitiva, e depois tambm dos primeiros medicamentos emagrecedores levados s farmcias na dcada de 50, as anfetaminas. Um dos principais arautos do corpo em movimento foi o mdico americano Kenneth Cooper. Seu mtodo, o "Cooper", criado nos anos 70, iniciava-se com corridas de 1,6 quilmetro em doze minutos, cinco vezes por semana. Progressivamente, a pessoa deveria aumentar seu ritmo, at atingir a marca dos 2,8 quilmetros, percorridos no mesmo tempo. O cardiologista inaugurou a ideia de que correr faz bem ao corao, aos pulmes e acelera o metabolismo  e quem nunca praticou um cooper? As corridas, antes dele, eram prerrogativa de atletas e pugilistas. Para os no esportistas, eram quase uma aberrao. Em 1968, o senador americano Strom Thurmond chegou a ser parado por policiais na cidade de Greenville, na Carolina do Sul, por estar correndo nas ruas. A atitude foi considerada "suspeita". At ento, faziam-se exerccios em casa, sem controle, no segredo da vida privada. 
     No sculo XIX, Elisabeth Amalie Eugenie von Wittelsbach, a imperatriz Sissi, mulher do imperador austraco Franz Joseph, extenuava-se na academia particular construda a seu pedido no palcio em que morava. Sissi pesava 47 quilos e tinha a cintura de 50 centmetros. Se suas medidas ultrapassassem poucos milmetros, a intensidade da ginstica aumentava  e por conta prpria. Em um exemplo mais recente, como no lembrar de Marilyn Monroe, levantando pesos vestida de cala jeans? Quando as fotos privadas de Marilyn vazaram, foi um escndalo. Nos anos 80, Jane Fonda inventou um estilo de vida ao lanar vdeos de aerbica protagonizados por ela. As mulheres a imitavam em casa, praticando os exerccios em pequenos espaos, sobre colchonetes. O primeiro vdeo, produzido em 1982, vendeu 17 milhes de cpias nos Estados Unidos. A ideia da ginstica como atividade aberta, sem medo, como a celebramos hoje, at chegou a ser ensaiada no sculo XIX, mas no vingou. A primeira academia de ginstica de que se tem notcia, com um desenho semelhante ao que se v atualmente,  do incio do sculo XIX. Em 1811, o pedagogo alemo Friedrich Ludwig Jahn, conhecido como "o pai da ginstica", teve a ideia de criar sales ao ar livre para reavivar os nimos dos alemes, depois da invaso de Napoleo. Jahn inaugurou o primeiro Turnplatz (ginsio a cu aberto), em Berlim. Mas logo a iniciativa se transformou em um movimento nacionalista  os centros foram alados a abrigos de discusses polticas, espaos para cultivar uma suposta fora moral e a exaltao patritica. Deu no que deu. Nos Estados Unidos, as academias surgiram em 1914. Eram sales equipados com mquinas feitas com cilindros e molas de ao, que espremiam o corpo das moas para cima e para baixo. Sumiram. Antes, portanto, da atual exploso das academias, na cola de Jane Fonda, e na trade de possibilidades de ataque  gordura, despontaram as mais evidentes: comer menos e tomar remdios. 
     A calculadora americana, simples e eficaz, apresenta-se como uma arma capaz de pr tudo isso num caldeiro e, rapidamente, oferecer um guia. Sozinha,  claro, no ganhar a batalha contra a gordura. Mas  o mais bem-acabado mapa jamais desenhado. Um dos grandes problemas a ser resolvidos  a queima das clulas de gordura. Um estudo do Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Sucia, revelou que o nmero de clulas adiposas  definido at os 20 anos. Quando uma pessoa emagrece, os adipcitos apenas perdem volume, mas continuam l, sedentos por voltar ao tamanho de antes. Entre os pouqussimos recursos na medicina capazes de driblar em parte esse detalhe cruel da natureza, est a crioliplise. A metodologia, sensao do momento nas clnicas dermatolgicas, consiste em reduzir cerca de 30% da gordura de determinada regio do corpo (barriga e flancos) por meio de congelamento (veja o quadro). 
     Outro caminho, alheio ao detalhamento entregue pela calculadora,  o radicalismo das dietas rigorosas. Os regimes extremamente restritivos compem a maioria dos programas de emagrecimento. O mundo provavelmente teria menos obesos sem os regimes muito extremados. O radicalismo  mesa caiu nas graas dos americanos na dcada de 70, quando o cardiologista americano Robert Atkins condenou os carboidratos e elegeu as protenas e as gorduras como aliadas dos corpos magros. Os seguidores de Atkins so liberados para comer ovos, bacon e carnes e chegam a perder 10% do peso corporal em apenas quinze dias. No entanto, 80% deles desistem da dieta em menos de trs meses e recuperam o peso. As estatsticas so as mesmas para qualquer dieta extremada. A explicao principal  fisiolgica: em pouco tempo, a perda de gordura faz com que o organismo, para se defender, reduza o ritmo natural do seu gasto calrico, tornando o regime ineficaz. Alm disso, mesmo com o sistema metablico mais lento, no se tolera passar fome por um longo perodo. Desiste-se da dieta. A calculadora est no avesso desse extremismo. 

A DIETA SEGUNDO AS CIRCUNSTNCIAS
Criada pelos Institutos Nacionais de Sade, o rgo responsvel pelo financiamento e controle de pesquisas mdicas nos Estados Unidos, a nova calculadora planeja o limite calrico para o emagrecimento e o tempo necessrio para que a meta seja cumprida. A equao  feita a partir de dados sobre as medidas e o estilo de vida do usurio. A seguir, os quatro passos principais.

PASSO 1
DADOS PESSOAIS E ATIVIDADE FSICA
 Informam-se o sexo, a idade, a altura, o peso, a atividade fsica realizada e a intensidade com que se praticam esportes. O usurio tambm classifica o nvel de esforo fsico que caracteriza sua rotina de trabalho - leve, mdio ou pesado.

O papel do metabolismo
O ponto crucial da calculadora  valorizar o conjunto de peculiaridades de cada organismo - para, a partir da, estimar as mudanas de hbito de acordo com o patamar de atividade fsica possvel de ser praticado.

SEXO
O que se sabe: a quantidade de gordura  diferente no homem e na mulher. O organismo feminino possui 50% mais tecido adiposo que o masculino.
Na prtica: um homem e uma mulher com o mesmo peso necessitam de uma dieta diferente para mant-lo  ela dever consumir 10% menos calorias.

IDADE
O que se sabe: o volume de massa magra (msculos e ossos) diminui com o passar do tempo. A partir dos 40 anos, homens e mulheres perdem 5% de massa magra a cada dcada.
Na prtica: um homem de 20 anos consegue manter o peso ideal consumindo 350 calorias por dia a mais em comparao com um homem de 65 anos com o mesmo peso e altura.
350 calorias equivalem a um prato fundo de macarro  bolonhesa ou a 2 e 1/4 pes franceses.

ALTURA
O que se sabe: pessoas com o mesmo peso, sexo e idade, mas com altura diferente, tm quantidade distinta de gordura.
Na prtica: considerem-se dois homens de 30 anos e 80 quilos, um com 1,85 metro de altura e o outro com 1,75 metro. O mais alto tem 17% de gordura e o mais baixo, 22%. Quanto mais gordura, menor deve ser o consumo calrico para a manuteno do peso.

PASSO 2
META A SER ATINGIDA
 Definem-se o peso que se deseja alcanar e o tempo para atingi-lo. Se a meta estabelecida for irreal, capaz de prejudicar a sade, a calculadora pedir que os dados sejam refeitos.

PASSO 3
GRAU DE COMPROMETIMENTO
 Escolhe-se o tipo de adaptao na atividade fsica que se est disposto a adotar para emagrecer. As mudanas, sugeridas pela calculadora, vo de caminhadas leves semanais  prtica diria de natao.

PASSO 4
RESULTADO FINAL
 O programa revela, enfim, a quantidade de calorias a ser consumida diariamente para atingir o objetivo. Calcula tambm a ingesto calrica necessria para a manuteno do peso depois do emagrecimento.

 A calculadora em portugus pode ser acessada nas edies de VEJA para tablets e iPhone.

Fontes: Institutos Nacionais de Sade dos Estados Unidos, Antonio Carlos do Nascimento, endocrinologista de So Paulo, Ana Carolina Moron Gagliardi Miguel, nutricionista e pesquisadora da Universidade de So Paulo, e Walmir Coutinho, diretor de ensino e pesquisa do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia do Rio de Janeiro.

A GORDURA CONGELADA
     E para quem tem pressa e no consegue reduzir a silhueta com o apoio de instrumentos como a calculadora planejadora de peso corporal, que exige calma e disciplina? A empresria gacha Aline D'Alessandro, de 33 anos, engordou 14 quilos depois da gravidez de Lorenzo. Ganhou barriga e coxas maiores. Durante alguns meses, a empresria adotou dietas radicais. Cortou carboidratos, trocou o caf da manh por sucos detox e se dedicou aos exerccios fsicos. O esforo a fez recuperar o peso de antes. Mas a gordurinha acumulada na barriga, ah, essa no sumiu. A histria soa comezinha, porm raras so as mulheres que no se identificam com o incmodo. Aline, ansiosa para emagrecer, recorreu ento a um tratamento esttico que consiste em reduzir as clulas acumuladas de gordura por congelamento. A tcnica chegou ao Brasil em 2010 e tem o nome de crioliplise ("crio", de frio, e "liplise", de destruio de gordura). Ela faz com que cerca de 30% das clulas de gordura da regio tratada - em geral, onde h mais acmulo (no abdmen e nas costas, por exemplo) - morram a 10 graus negativos (veja o quadro ao lado). A crioliplise foi desenvolvida no fim dos anos 90 por pesquisadores da Universidade Harvard.  hoje um dos grandes sucessos mundiais nas clnicas de dermatologia. Diz o dermatologista Jardis Volpe: "Desde sua aprovao pela FDA, em 2010, cerca de 2 milhes de pessoas se submeteram ao tratamento no mundo". No h estatstica brasileira, mas apenas em uma clnica paulistana o nmero de procedimentos desse tipo realizados no ano passado chegou a quase 1000. A atriz Deborah Secco, antes da gravidez, reduziu os flancos por meio desse recurso. 
     O mtodo  considerado seguro, mas tem riscos  como todo e qualquer procedimento esttico. No caso da crioliplise, as queimaduras na pele provocadas pelo frio so a queixa mais comum. "A popularizao do mtodo fez com que ele passasse a ser realizado tambm por profissionais no especializados", diz Gabriel Gontijo, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia. A recomendao da instituio  que o tratamento seja feito por um dermatologista e com aparelhos certificados pela Anvisa. H nove marcas de mquina de crioliplise aprovadas no Brasil.

O ATAQUE DO GENERAL INVERNO
A crioliplise mata as clulas de gordura por congelamento

1- Encosta-se um aplicador em formato retangular, com cerca de 15 centmetros de largura por 5 centmetros de altura, na regio do corpo a ser tratada - em geral, onde h mais acmulo de gordura (no abdmen e nas costas, por exemplo).
2-  O dispositivo gela a rea a 10 graus negativos. O resfriamento atinge cerca de 30% das clulas adiposas, sobretudo as mais prximas  superfcie do corpo.
3- As clulas atingidas morrem e "se quebram" em pedaos muito pequenos. As estruturas mortas so eliminadas pelo sistema linftico, uma rede de vasos que age como removedor de resduos do organismo. 
4- O resultado esttico, 30% a menos de gordura na rea tratada, surge em at quatro meses, tempo que o organismo leva para eliminar todas as clulas congeladas.
Fontes: Jardis Volpe, dermatologista, e Artur Timerman, infectologista.

A IMPORTNCIA DOS PEQUENOS MOVIMENTOS
O programa elaborado pelos pesquisadores americanos valoriza qualquer movimentao do corpo, at mesmo nas situaes mais corriqueiras. A seguir, alguns exemplos de como perder calorias em circunstncias extremamente triviais em comparao s atividades fsicas programadas.

Queimam-se 100 calorias...

...no dia a dia... 
 Subindo e descendo uma escada por 10 minutos 
 Levando o cachorro para passear por 20 minutos 
 Plantando mudas ou sementes por 25 minutos 
 Cozinhando por 50 minutos 
 Fazendo compras no supermercado por 30 minutos 

...e na academia
 Correndo na esteira por 13 minutos (numa velocidade de 8 quilmetros por hora) 
 Fazendo musculao por 20 minutos 
 Jogando futebol por 12 minutos 
 Caminhando por 18 minutos 
 Praticando artes marciais por 9 minutos 
 Pulando corda por 8 minutos 

Fonte: Isaias Gonalves Rodrigues, fisiologista do exerccio e proprietrio da academia E-Motion, de So Paulo.


6#4 PERFIL  ELA CRIA DOLOS
A empresria carioca Kamilla Fialho trouxe para o mundo do funk o conceito de carreira planejada. Assim alavancou Naldo, inventou Anitta, reinventou Valesca Popozuda e se tornou uma potncia na arte de fazer sucesso.
CECLIA RITTO

     Por muito tempo restrita a festas lotadas, a batida contagiante do funk carioca, enquadrada em letras e gestos mais palatveis, chegou s rdios e ao grande pblico na voz de dolos que parecem surgir do nada. De acaso, no entanto, a ascenso da nova safra funkeira tem muito pouco. Na raiz do sucesso dos dois maiores nomes do gnero no momento, Anitta ("Pre-pa-ra") e Naldo Benny ("Vodca ou gua de coco"), e tambm da virada pop da veterana Valesca Popozuda ("Eu sou a diva que voc quer copiar")  trio que acumula 250.000 discos vendidos , est o rigoroso plano de voo montado por Kamilla Fialho, 34 anos, a empresria que vem se notabilizando por esquematizar carreiras e pr ordem na desorganizao e na informalidade predominantes no meio. Alta, com corpo esculpido por quatro lipoaspiraes e malhao diria, figurino insinuante e jeito simptico, Kamilla (balizada com todas essas letras) controla a roupa, o supermercado, a dieta e as postagens nas redes sociais de seus artistas com o rigor de um general no quartel  o que, alis, rende queixas veladas. "Ningum  obrigado a trabalhar comigo. Se topar, sabe que o sistema  esse", decreta. 
     A linha de montagem de sua empresa, a K2L ("Kamilla com dois l"), inclui professor de portugus, de ingls, de canto e de instrumento musical, psiclogo, nutricionista e, indispensveis, stylist e instrutor em media training, para ensinar a dar entrevista. O tempo de preparo pode durar um ano, bancado por Kamilla  a includa a gravao do clipe de trabalho, sempre um investimento de porte. A marcao  cerrada. Uma pupila em formao, a funkeira Lexa (pronuncia-se Lecha), 20 anos, escureceu o cabelo, emagreceu 15 quilos e trata de se vestir conforme a ocasio, seja ela uma ida  padaria ou um embarque no aeroporto. No dia em que gravou o primeiro videoclipe, Lexa postou fotos comendo esfiha para se recuperar do esforo. Esfiha? Kamilla avaliou que no fazia bem  imagem. Ligou mais que depressa para a moa, e a foto sumiu das redes sociais. Anitta, o maior trofu da empresria, era mais uma na Furaco 2000, a maior fbrica de funkeiros do Rio de Janeiro, quando Kamilla chegou e mudou sua vida. At plstica no nariz da cantora ela bancou meio a meio. "Depois Anitta fez mais uma, alm de mexer no queixo e nas mas do rosto", entrega. Mais bem preparada, mais bem-vestida e mais bem assessorada, a cantora viu o cach saltar de 1500 para 120.000 reais por show. Hoje, as duas so inimigas devido a pendncias financeiras. Nem se falam. 
     A chegada do funk ao grande pblico no  obra de Kamilla, mas ela soube aproveitar o novo momento. "O ritmo ficou mais valorizado depois que o tempo dos shows aumentou, a estrutura ficou maior e novos instrumentos foram introduzidos", diz o produtor Renato da Silva, o Batutinha. Kamilla est no ramo h doze anos, mas s nos ltimos quatro se tornou a empresria que (quase) todo mundo quer ter. A virada se deu com Naldo Benny, funkeiro que se uniu a ela com a inteno de conquistar o universo pop. Pelas mos de Kamilla, a equipe dele passou de cinco para vinte pessoas, o show ganhou banda e danarinos e a estreia foi em uma casa de espetculos de elite, risco que se pagou muito bem: o teatro lotou, Naldo decolou e Kamilla subiu junto. Seguindo a prpria receita, ela repaginou-se inteiramente. No fala sobre faturamento, mas mora (de aluguel) com a filha de 12 anos em um apartamento na Barra da Tijuca, dirige um SUV e anda com uma poderosa bolsa Chanel a tiracolo. 
     Seu nico desgosto atualmente  o rompimento com Anitta, de quem era amicssima. No ano passado, "do nada", segundo afirma, Anitta saiu da K2L e processou a empresa por desvio de 2,5 milhes de reais que seriam seus por direito. Em troca, a K2L processou Anitta por quebra de contrato e cobrou multa de 3 milhes de reais. Por enquanto, Kamilla est ganhando: Anitta teve de depositar a quantia em juzo, enquanto correm recursos. O episdio rendeu  empresria a oitava tatuagem, escrita nas costas: "Prefiro ser trada a desconfiar de todos". Chegou at a pensar em largar tudo e abrir uma pousada na Califrnia. Em vez disso, optou por ampliar o leque: adotou uma dupla sertaneja paulista, Bruninho e Davi. Afinal, uma empresria musical tem de danar conforme a msica. 

FOI KAMILLA QUE FEZ 
Juntas, as maiores estrelas do portflio da empresria venderam 250.000 discos. 

ANITTA Contratada pela K2L, fez plsticas, teve as primeiras aulas de canto e deu certa refinada no visual. O vdeo de Meiga e Abusada foi gravado em Los Vegas e comandado por um diretor de Beyonc. Hoje as duas nem se falam. 

NALDO O DVD do primeiro show do cantor sob nova direo foi gravado ao vivo no Citibank Hall, palco nobre do Rio de Janeiro que jamais havia hospedado um cantor de funk. Kamilla foi chamada de louca pelo investimento de to alto risco. O teatro lotou e Naldo fez histria. 

VALESCA Catapultada ao sucesso-solo com Beijinho no Ombro, a funkeira contratou a K2L para orient-la sobre como perpetuar a fama. Fez-se o clipe ostentao Eu Sou a Diva que Voc Quer Copiar, o mais vestido de sua carreira. 
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7# ARTES E ESPETCULOS 19.8.15

     7#1 CINEMA  4  POUCO, 5  BOM...
     7#2 MSICA  UMA CANTORA DE GARRA
     7#3 TELEVISO  CANALHICE FASHION
     7#4 VEJA RECOMENDA
     7#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     7#6 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  VIDA QUE SEGUE

7#1 CINEMA  4  POUCO, 5  BOM...
...e nunca  demais: na nova lgica do cinema, o que vale hoje em um filme  a sua marca, no o seu protagonista. Mas, no quinto Misso: Impossvel, Tom Cruise demonstra que ainda h um lugar no mundo para os superastros.

     Ethan Hunt tem um probleminha: sobreviveu s atenes de um sujeito com inclinaes sociopticas e uma mala cheia de ferramentas afiadas, mas agora est ferido e sem recursos para retornar  segurana de sua agncia, a Impossible Mission Force, ou IMF. Desesperado, liga para o colega William Brandt (Jeremy Renner) pedindo apoio. Brandt nada pode fazer: a CIA convenceu o governo americano de que a IMF no passa de uma relquia incmoda da Guerra Fria e no h mais lugar para seus mtodos no mundo de hoje. A IMF foi extinta, seus espies foram absorvidos pela mquina burocrtica da CIA e Ethan Hunt no apenas est sozinho no mundo como  considerado foragido: deve ser capturado ou, se resistir, morto. Ethan depende, portanto, de provar a existncia de uma perigosssima organizao conhecida como Sindicato para demonstrar a necessidade da IMF e dele prprio, e assim impedir que as mesmas foras que o criaram venham a aniquil-lo. Misso: Impossvel  Nao Secreta (Mission: Impossible  Rogue Nation, Estados Unidos, 2015), j em cartaz no pas,  elegante, dinmico, vibrante e vigoroso. Sua trama, porm,  quase que uma alegoria do desafio que astros como Tom Cruise hoje enfrentam: os nmeros insistem que eles se tornaram uma relquia sem muita utilidade num mundo em que a marca do filme, e no o seu protagonista,  que atrai pagantes. Cabe a Cruise provar que, sim, ainda h lugar para essa estirpe de superastros forjada nas dcadas anteriores. Cabe, sobretudo, demonstrar que, embora j no chame pblico como antes quando seu nome vinha sozinho na marquise do cinema, seria impossvel a uma franquia como Misso existir sem ele. 
     Entre as vinte maiores bilheterias mundiais do momento, dezesseis esto ligadas a alguma srie ou franquia. Titanic, o segundo da lista, no ter jamais continuao, por razes bvias. Mas os outros trs "filmes-solo" logo abandonaro essa categoria. Avatar, o recordista, tem trs sequncias planejadas, e Frozen 2 e Alice no Pas das Maravilhas 2 tambm j esto em produo. No jogo de apostas altssimas que se tornou o cinema americano, no qual s a partir dos 300 ou 400 milhes de dlares de renda os blockbusters comeam a pagar seus custos, todo material original, no testado em livro, quadrinho ou sala de exibio,  um risco frequentemente grande demais para ser encarado. 
     Essa nova lgica estilhaou alguns antigos pressupostos. Primeiro, foi-se o tempo em que as continuaes iam diluindo ou pervertendo a premissa original at o ponto do ridculo: a marca  hoje o patrimnio mais valioso, e para proteg-la  preciso multiplicar sua potncia a cada filme. No  por acaso que em seu stimo episdio a franquia Velozes e Furiosos tenha disparado para o quinto lugar no ranking dos recordistas, com renda mundial de 1,5 bilho de dlares: seus stunts ultrapassam todos os limites do absurdo, mas tambm da graa e da competncia. O efeito mais visvel dessa nova ordem, porm, est na forma como ela roubou aos superastros o seu poder. Mesmo quando uma franquia constri um superastro, ela no transfere sua popularidade para os filmes em que o ator no tem o amparo de uma marca. Robert Downey Jr. catapultou Homem de Ferro 3 para o clube do bilho, mas, no seu lanamento seguinte, O Juiz, colheu apenas 84 milhes de dlares. Johnny Depp  o exemplo drstico: ele foi a chave para os 3,7 bilhes de dlares dos quatro Piratas do Caribe, mas enterrou em prejuzo a fico cientfica Transcendence e a comdia Mortdecai. 
     Tom Cruise, portanto, tinha um probleminha: com seus filmes fora de franquia estacionados na casa dos 200 ou 300 milhes de dlares (pois , hoje em dia isso  considerado estacionar), ele precisava provar que no  Misso: Impossvel que o faz   ele quem faz Misso: Impossvel com sua coragem de se pendurar de avies em voo e pilotar motos em altssima velocidade (e, como um vdeo muito visto no YouTube mostrava, ele no usa mesmo dubles) e com sua determinao de burilar uma produo at que ela atinja a voltagem mxima. De fato, Nao Secreta  at melhor que o excelente filme anterior, Protocolo Fantasma, de 2011, j que  ao assombrosa o atual diretor, Christopher McQuarrie, alia uma elegncia estilstica diretamente inspirada em Alfred Hitchcock. Em uma maravilhosa cena na pera de Viena, no timo timing cmico de Simon Pegg ou na presena da sueca Rebecca Ferguson, que tem cara e porte de estrela da velha Hollywood, tudo est no lugar certo. Sobretudo Cruise, que pelo menos por ora deixa demonstrado que alguns astros ainda podem ser nicos e insubstituveis. 


7#2 MSICA  UMA CANTORA DE GARRA
Musa das diretas mas hoje desencantada com os rumos do pas, Faf de Belm reafirma, em novo disco, sua paixo por toda a variedade da msica brasileira  da MPB tradicional ao brega.
SRGIO MARTINS

     No Carnaval de 1978, o Regine's, boate carioca frequentada por figures do showbiz, teve, entre os convidados, Elton John, Rod Stewart e Peter Frampton. Pois Frampton cometeu o erro de, com um chega pra l rebolante, tentar deslocar Faf de Belm do sof onde ela estava acomodada. A cantora pegou uma das bolas prateadas que faziam a decorao do lugar e a jogou no roqueiro ingls (nenhum ferimento grave: a bola era de isopor). Diante do pasmo do guitarrista, resolveu botar as coisas no lugar com uma frase no ingls do Tarzan: "Here, now, me is the star!". Maria de Ftima Palha de Figueiredo  uma mulher de garra. Demonstra isso no estdio e no palco, na luta pelas causas em que acredita e tambm, como se atestou no Regine's, nos eventuais barracos que arma. Faf de Belm  a intrprete que mais tem a cara do Brasil: seu repertrio vai da MPB de boa reputao  aquela de Chico Buarque e do Clube da Esquina  s lambadas e aos bregas dos inferninhos de sua cidade natal; de patriotadas como uma verso piano e voz do Hino Nacional ao sertanejo. Com recm-completados 59 anos, Faf acaba de lanar o clipe da cano Volta, composta pelo pernambucano Johnny Hooker para a trilha sonora do filme Tatuagem, e que na voz dela virou fundo sonoro de bas-fonds.  um aperitivo para Do Tamanho Certo para o Meu Sorriso, que deve chegar s lojas no fim do ms. Em dez faixas que trafegam entre o brega paraense e boleros, ela se entrega e se lambuza em letras que falam de amor e abandono. No ser o melhor ttulo de sua longa discografia, mas  um lbum que reafirma a amplitude sem preconceitos de suas escolhas musicais. "Faf  uma cantora sangunea, franca, natural, brasileira, feminina e exuberante, de voz quente e sinuosa", diz Guilherme Arantes, cuja cano Aconteceu Voc virou sucesso na voz da cantora. 
     De uma famlia de classe mdia alta de Belm, Faf foi descoberta, em 1973, pelo produtor musical Roberto SantAnna, que foi ao Par em busca de novos talentos. Um compositor local pediu a SantAnna que escutasse uma msica dele, que seria interpretada por uma amiga ainda adolescente chamada F. "Escutei e disse que ficaria com a cantora, no com a msica", lembra SantAnna, mais tarde responsvel por rebatizar a artista como Faf. A consagrao nacional veio com a gravao de Filho da Bahia, um dos temas da novela Gabriela. Nos anos 1980, ela se desvinculou da MPB mais, digamos, "sria" para se tornar uma intrprete de msica popular com P maisculo, opo que lhe rendeu o incmodo adjetivo de brega. "Faf , como eu, uma artista sem preconceito e sem conceito", comemora Michael Sullivan, um ex-brega que virou chique. Faf desconfia dos que atacam gneros populares. No digeriu bem os resmungos do jornalista e apresentador de TV Zeca Camargo diante da comoo causada pela morte do cantor sertanejo Cristiano Arajo. "Foi fora do ponto, preconceituoso, pequeno e com olhar de desprezo para tudo o que no  da Zona Sul do Rio de Janeiro", critica. Faf foi a primeira cantora de MPB tradicional a abraar os sertanejos. E revela certa mgoa com a dupla Zez Di Camargo e Luciano, de quem gravou guas Passadas: no foi citada na cinebiografia 2 Filhos de Francisco. "Depois me convidaram para uma festa. Acho que era o casamento da Wanessa. Disse que no iria porque seno tomaria uma dose de usque e chamaria o Zez. Poderia ser uma confuso." 
     A cantora que foi musa das eleies diretas anda desencantada com o Brasil atual. "Existe uma crise institucional, mas tambm uma crise tica e moral gravssima", diz. Nas ltimas eleies, apoiou Acio Neves, mas seu preferido era Eduardo Campos, morto em um desastre de avio em agosto de 2014. "Dudu seria o fiel da balana. Fez um timo governo em Pernambuco." Faf  me de Mariana, fruto do relacionamento com o saxofonista Raul Mascarenhas, e av de Laura (h pouco, recebeu a notcia de que Mariana est grvida de outra menina). Diz que h tempos no vive uma grande paixo, mas diverte-se falando de tempos em que as paixes eram plurais: "Uma vez, dois irmos se apaixonaram por mim. A me deles sugeriu que eu sasse com os dois. Namorei um, depois namorei o outro. Hoje, somos grandes amigos". Realmente, no existe mulher como Maria de Ftima Palha de Figueiredo. 


7#3 TELEVISO  CANALHICE FASHION
A novela Verdades Secretas conseguiu expor o lado barra-pesada da moda sem chocar o pblico. Mas seu maior trunfo nunca saiu de voga: a velha cafajestice  brasileira.
MARCELO MARTHE

     Na segunda-feira 10, o noticirio da TV sobre a Operao Lava-Jato enfrentou a concorrncia de outro evento bombstico  que poderia ser balizado de "Operao Rabo de Saia". Nesse caso,  diferena do mau humor com os malfeitos da poltica no Brasil real, a tigrada queria  aplaudir a consumao de um escndalo ficcional. Verdades Secretas, a novela das 11 da Globo, repetiu seu recorde de 26 pontos no Ibope em So Paulo graas  expectativa de um flagrante de alcova. O empresrio Alex (Rodrigo Lombardi)  casado com a coroa Carolina (Drica Moraes). Mas, rematado cafajeste, sempre esteve de olho  na filha dela, a modelo e ninfeta Angel (Camila Queiroz). O interesse pela cena em que Carolina quase pegou seu marido a traindo com a prpria filha foi a reafirmao de um valor caro  dramaturgia nacional: nada galvaniza tanto os brasileiros quanto uma boa canalhice  moda antiga. 
     Desde o incio, a trama de Walcyr Carrasco conseguiu dar forma palatvel a um universo dissoluto. "A gente fala de coisas fortes, mas no deixa de oferecer lies morais", diz o diretor de ncleo Mauro Mendona Filho. Em seu retrato dos bastidores da moda, o folhetim tem como pea central o "book rosa"  a lista de modelos que se prostituem para uma clientela de homens de negcios. "Eu tinha ouvido falar do book rosa, mas no conheo ningum que fez. Na minha agncia, no tem", diz Camila Queiroz, que era s modelo, sem experincia como atriz, at a novela. Verdades Secretas tambm mergulha no drama da viciada em crack Larissa, papel que fez a boa-moa Grazi Massafera liberar o seu lado masoquista (veja a entrevista na pg. ao lado). "Ela chegou para o teste com a alma corrompida e deixou uma coisa demonaca sair de dentro dela", afirma Mendona Filho. Muito do xito de Verdades Secretas se deve ao acerto da direo, que expe o mundo-co, mas com ternura. As cenas em uma Cracolndia de mentirinha investem no tipo de "poetizao" da misria que se v nas fotos de um Sebastio Salgado. "Tem sempre algum que acusa: 'Esto explorando a tragdia para ganhar audincia'. Mas o choque no  o nico caminho, sacou?", diz Mendona Filho. 
     Embora tenha vencido o teste de abordar temas pesados sem chocar, Verdades Secretas s causou excitao geral quando os babados da moda viraram pano de fundo para um ingrediente velho, mas irresistvel: o tabu da atrao sexual que no respeita os limites da decncia social e familiar. Algo que j era exposto pelo dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues (1912-1980) em tipos como Palhares, cafajeste que no perdoava nem a mulher do irmo: na primeira chance, tascou um beijo no pescoo da cunhada. 
     Alex ainda tem de provar que  um canalha da estirpe de Palhares. As notcias a seu respeito so contraditrias. Depois de seduzir a enteada, ele j confessou que faz tudo por amor a Angel  fraqueza que um Palhares desprezaria. Autor e intrprete no consideram o personagem nem mesmo canalha. "Alex tem muito a ver com tantos empresrios paulistas riqussimos que acham que podem comprar tudo, mas se confundem quando confrontam a prpria emoo", ameniza Carrasco. Completa Rodrigo Lombardi: "Alex  s um cara. Pode ser qualquer um, at seu vizinho". Na dvida, maridos e mes de mocinhas devem ficar de olho nos gals das residncias prximas. Especialmente se eles tiverem o hbito de expor sua musculosa retaguarda, como faz Alex volta e meia na novela. 
     No final das contas, o que vai decidir se Alex faz jus  tradio dos canalhas ser o desfecho do tringulo amoroso. H quem tora por um desenlace rseo. "Eu me pergunto todo dia se eles ficaro juntos", diz Camila Queiroz. O autor no descarta nenhuma sada: afirma que escreveu dois finais. Mas, para no frustrar a expectativa dramtica, enredos assim s comportam uma soluo. "Obviamente, tem tragdia vindo por a", diz Mendona Filho. A semente foi plantada no primeiro captulo, quando Carolina mostrou que sabe atirar. Como ensinou o russo Anton Tchekov, sempre que uma arma surge em cena numa trama, ela deve ser disparada. A conferir se essa verdade nada secreta ser honrada. 

"CREDO, EU ESTOU UM LIXO"
O papel da viciada Larssa  o maior teste para Grazi Massafera desde que a ex-estrela do Big Brother Brasil virou atriz. Aos 33 anos, ela fala das dores de rasgar seu figurino de eterna moa boazinha.

Que tal viver uma viciada em crack? 
 exaustivo. Visitei a Cracolndia, em So Paulo, para conhecer a realidade dos viciados, e sa de l com um sentimento de impotncia, como cidad e artista. Em cena, fumo o tempo todo, e cigarro me faz mal. Mas sabe que  essa sensao ruim que faz a Larissa bater dentro de mim? Aps gravar, tomo banho de sal grosso e mergulho no mar para aliviar a barra. Acredito nessa limpeza.  uma proteo contra o astral forte das cenas. 

 to pesado assim? 
Quando fui fazer teste para o papel, fiquei com medo e insegura, porque a Larissa  muito diferente de mim. Venho de personagens sofredoras, boazinhas, parecidas comigo, at. Precisava vir logo uma prostituta drogada, meu Deus? Meu temor era dar um passo maior que a perna. S que eu estava querendo sair da zona de conforto. Fiz um curso de atuao na Espanha, e foi visceral, sabe? Ento tomei coragem e me joguei na Larissa. 

Sua imagem abatida impressiona. Como foi o preparo? 
A primeira providncia foi passar uma noite em claro. Nunca tinha feito isso, pois no curto baladas. Dito e feito: no dia do teste, cheguei com olheiras bravas. Depois, emagreci 3 quilos, o que foi uma luta para algum que adora comida. Tambm no estou tomando sol, que  uma coisa que eu amo, nem tirando sobrancelha ou fazendo as unhas. Credo, eu estou um lixo. 

Como foi a converso de estrela do BBB em atriz? 
No incio, questionei se daria para a profisso. Entrei no BBB porque queria ganhar dinheiro. No tinha noo do quanto estava me expondo. Fui muito ingnua. O BBB abriu caminhos, mas sofri bullying na Globo, viu? Muita gente me deu dedadas na cara: colocavam-me em situaes patticas e aprontavam maldades. Uma vez, um diretor me humilhou: "Quando voc vai parar de fazer publicidade e virar atriz?". Na hora, foi agressivo, mas a pergunta ficou ecoando dentro de mim e acabei tirando uma lio. A anlise me ensinou que posso aproveitar essas coisas para evoluir. 

Quando a anlise entrou na sua vida? 
Faz uns trs anos. As pessoas me perguntam que tipo de anlise eu fao. Sabe que no sei? S sei que faz bem. No incio, achava que era coisa para gente maluca. Via como ofensa pagar para uma pessoa me ouvir. Mas descobri que ajuda. At para superar o fim do meu casamento (Grazi se separou h dois anos do ator Cau Reymond, pai de sua filha, Sofia, de 3 anos). Todo fim de casamento  doido e dolorido. Eu respeitei meu tempo e agora passou. Tudo na vida  o tempo. 


7#4 VEJA RECOMENDA

LIVROS
A ENTREGA, DE DENNIS LEHANE (TRADUO DE LUCIANO VIEIRA MACHADO; COMPANHIA DAS LETRAS; 184 PGINAS; 39,90 REAIS OU 27,90 NA VERSO ELETRNICA)
 Talvez o mais respeitado autor policial americano hoje, Dennis Lehane tem tido sorte com a adaptao de seus romances para o cinema  Sobre Meninos e Lobos (2003), em especial,  um grande filme. Mas foi s no ano passado, com A Entrega  o ltimo filme de James Gandolfini, o ator de Famlia Soprano , que Lehane se arriscou pela primeira vez como roteirista. O filme era baseado em um conto seu, sobre um bartender solitrio que, na companhia de uma mulher desiludida, resolve cuidar de um cozinho que encontrou abandonado na rua poucos dias depois do Natal. Inocncia e bons sentimentos, como sempre nos livros de Lehane, esbarram no pior do submundo: o bar onde o protagonista trabalha  ponto de encontro da mfia chechena, e o violento dono do cachorro vir pedi-lo de volta. Narrativa curta mas eficiente, A Entrega  uma expanso daquele conto  ou, na verdade, uma verso romanceada do roteiro. O filme foi ambientado em Nova York. No livro, porm, Lehane trouxe a ao de volta a sua cidade, Boston.

COMO SER UM CONSERVADOR, DE ROGER SCRUTON (TRADUO DE BRUNO GARSCHAGEN; RECORD; 294 PGINAS; 38 REAIS)
 O filsofo Roger Scruton foi professor em universidades inglesas, e os primeiros livros que publicou foram dedicados  arte. Seu credo conservador, como ele mesmo diz neste livro, foi de incio muito inspirado pela obra terica do poeta T.S. Eliot e do crtico F.R. Leavis, que se empenharam em examinar (e valorizar) a longa tradio artstica e cultural que o Ocidente herdou. Essa sensibilidade esttica talvez explique uma qualidade de Scruton: a elegncia. Sim, ele tambm  um arrojado polemista, como provou nos anos em que editou a revista conservadora The Salisbury Review. Mas um hipottico esquerdista que lesse este Como Ser um Conservador se sentiria provocado, no insultado, tal a fora da argumentao clara e incisiva de Scruton. Complementar a O que  Conservadorismo, outra obra de Scruton lanada no Brasil neste ano, pela editora  Realizaes, este livro parte de um resumo da trajetria intelectual do prprio autor para examinar como o conservadorismo encara variados temas da agenda contempornea, a exemplo da ecologia e do multiculturalismo.

DISCO
BLURRYFACE, TWENTY ONE PILOTS (WARNER)
 O Twenty One Pilots  um caso de triunfo construdo de baixo para cima no mundo musical. Formado por trs companheiros de colgio no Estado americano de Ohio, em 2009, o grupo seguiu a princpio uma trajetria tpica de banda indie: bancava o lanamento dos prprios discos e os divulgava por meio da guerrilha nas redes sociais e de shows no circuito local do Meio-Oeste. Mas seu coquetel danante de rap, levadas eletrnicas, refres matadores e at uma pitada de ritmos como o ska era potente demais para ficar relegado ao subterrneo. Em 2012, o grupo  j ento uma dupla, formada pelo remanescente da banda original, Tyler Joseph, e por Josh Dun - assinou com uma grande gravadora. Seu novo lbum, Blurryface, estreou no topo da parada da Billboard americana. Faixas como Stressed Out e Tear in My Heart demonstram a voltagem dessa bem temperada mistureba sonora  que j foi chamada de "esquizo pop", tal a quantidade de referncias dspares combinadas em cada msica. Eis a prova, sobretudo, de que o pop adolescente pode produzir trabalhos de respeito.
BLU-RAY
CADA UM NA SUA CASA (HOME, ESTADOS UNIDOS, 2015. Fox)
 Como espcie, os boovs tm uma nica aptido digna de nota: dar no p rumo a algum outro planeta sempre que seus inimigos, os gorgs, ameaam atac-los. Desta vez, seu mais talentoso fujo, o Capito Smek, escolheu um destino agradvel: um planeta azul habitado pelo que ele descreve como uma gente primitiva e inofensiva  a Terra. Depois da invaso dos boovs, todos os humanos so retirados de casa e levitados para um parque (que, apesar de muito colorido e festivo, no passa de um campo de concentrao), onde se espera que vivam contentes enquanto os aliengenas ocupam seus lares. A deportao  especialmente traumtica para a garota Tip, que ficou para trs, nos Estados Unidos, separada de sua me. Na tentativa de reencontr-la, Tip se junta a Oh, um boov desprezado pelos seus companheiros por ser alegre e entusiasmado demais. A mensagem sobre individualidade e amizade do filme do diretor Tim Johnson (de Os Sem-Floresta) no  muito original, mas no  esse o critrio pelo qual se deve julg-lo: esta  uma das raras animaes mais preocupadas em agradar s crianas pequenas que em divertir os pais delas.

CINEMA
NA PRXIMA, ACERTO NO CORAO (LA PROCHAINE FOIS JE VISERAI LE COEUR, FRANA, 2014. J EM CARTAZ)
 Entre 1978 e 1979, um homem mata jovens mulheres na regio de Oise, prximo a Paris, primeiro atropelando-as e, mais tarde, escolhendo caronistas a esmo e ento alvejando-as. No suspense do diretor Cdric Anger, no h nenhum mistrio acerca da identidade do assassino: trata-se do policial Franck Neuhart. Interpretado com excelncia por Guillaume Canet,  Franck, em si, o mistrio inexplicvel desta trama inspirada em episdios verdicos: um homem que mata incitado por uma convico medieval de que as mulheres so agentes da corrupo, mas que, depois dessas erupes, oculta seus crimes com mtodo e clareza absolutamente racionais. As razes pelas quais Franck se tornou o que  so ainda mais opacas: nada na sua histria explica a propenso homicida. Sophie (Ana Girardot), a moa que cuida de sua casa, acha que ele  um prncipe. Seus superiores o consideram um policial capaz  e o escolhem para investigar os crimes. Eis onde est a tenso crescente do filme: na certeza de que, em algum momento, a escalada de assassinatos e a escalada da investigao tero de colidir. 


7#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
2- Nmero Zero. Umberto Eco. RECORD
3- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
4- A Herdeira. Kiera Cass. SEGUINTE 
5- Toda a Luz que No Podemos Ver. Anthony Doerr. INTRNSECA 
6- Minha Vida Fora de Srie  3 Temporada. Paula Pimenta. GUTENBERG 
7- A Rainha Vermelha. Victoria Aveyard. SEGUINTE
8- A Garota no Trem. Paula Hawkins. RECORD
9- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito 
10- As Espis do Dia D. Ken Follet. ARQUEIRO

NO FICO
1- Abilio. Christine Correa. PRIMEIRA PESSOA
2- S por Hoje e para Sempre. Renato Russo. COMPANHIA DAS LETRAS 
3- Correr. Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS 
4- O Papai  Pop. Marcos Piangers. BELAS LETRAS
5- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD 
6- Eu Fico Loko. Christian Figueiredo de Caldas. NOVAS PGINAS 
7- Brasil: uma Biografia. Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling. COMPANHIA DAS LETRAS 
8- Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA
9- Bela Cozinha: As Receitas. Bela Gil. GLOBO 
10- Histria do Futuro. Miriam Leito. INTRNSECA

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- No Se Iluda, No. Isabela Freitas. INTRNSECA
2- Philia. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM 
3- A Mgica da Arrumao. Marie Kondo. SEXTANTE
4- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA 
5- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA 
6- A Hora  Agora! Zibia Gaspareto. VIDA & CONSCINCIA
7- Gerao de Valor. Flvio Augusto d Silva. SEXTANTE
8- Parbolas. Padre Reginaldo Manzotti. PETRA
9- Quem Me Roubou de Mim? Padre Fbio de Melo. PLANETA
10- O Poder do Hbito. Charles Duhigg. OBJETIVA


7#6 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  VIDA QUE SEGUE
     Uma singela cartinha, estampada no jornal Folha de S.Paulo, na coluna de Mnica Bergamo, do ltimo dia 7, comeava assim: 
     "Senhor vice-presidente, 
     Com os meus cordiais cumprimentos, dirijo-me a Vossa Excelncia para encaminhar as seguintes indicaes para cargos de diretorias na Companhia Docas do Estado de So Paulo - Codesp". 
     Quem assinava a carta, dirigida ao vice-presidente Michel Temer, era o deputado Beto Mansur (PRB-SP), primeiro-secretrio da Cmara dos Deputados. Seguiam-se os nomes de trs indicados, respectivamente para as diretorias Comercial e de Negcios, de Infraestrutura e Obras e de Planejamento e de Assuntos Estratgicos, cada um deles diligentemente acompanhado dos nomes de quem o indicou. O primeiro, o da diretoria Comercial e de Negcios, era indicao do deputado Ricardo Izar (PSD-SP) e do prprio Beto Mansur; o segundo, dos deputados Milton Monti (PR-SP) e Nelson Marquezelli (PTB-SP); o terceiro, dos deputados Marcelo Squassoni (PRB-SP) e Baleia Rossi (PMDB-SP). Em suas escassas 22 linhas, a carta tinha o efeito de enfim trazer um segredo  tona.  
     Ora, direis, ento no sabias que era assim? Seria necessrio ter passado as ltimas dcadas em outra galxia para ignorar que cargos no governo so leiloados, e que o vice-presidente Michel Temer, hoje na pele de "articulador poltico", tem funo equivalente  de leiloeiro oficial. E eu vos direi no entanto que uma coisa  estar cansado de saber que os hipoptamos existem, e outra  deparar com um exemplar em carne e osso. A carta do deputado Beto Mansur era como o hipoptamo que enfim se expunha por inteiro para fora do pntano. No  qualquer dia que isso ocorre. Frequentadores de zoolgicos muitas vezes tm de se contentar com no mais que uma narina a emergir da gua. A carta do deputado  um tesouro do qual se extraem duas lies para os dias que correm. 
     No mesmo dia em que a carta era estampada na coluna de Mnica Bergamo, o site do jornal O Estado de S. Paulo apresentava uma entrevista com o deputado Baleia Rossi, um dos que figuram como indicadores do candidato a diretor de Planejamento e de Assuntos Estratgicos da Codesp. Rossi, que  presidente da seo paulista do PMDB, afirmava, sobre a atual crise: " preciso que haja alguma reao por parte do governo, e o PMDB fez sugesto clara de reduo de ministrios, que viria com corte de 38 para vinte". O comum das pessoas, indagadas sobre o que vale mais, se um ministrio ou uma boca na estatal que gere as docas de Santos, responderia que  um ministrio. O deputado Baleia Rossi fazia a opo contrria. Ministrios ele descartava aos montes, enquanto defendia a boca na estatal. 
     Da se extrai a primeira lio: recomenda-se cautela com a conversa de reduo de ministrios. Reduzir ministros  bom sem dvida para fins de mais facilmente decorar seus nomes, harmonizar suas posies e conseguir aloj-los todos numa mesma mesa. Mas o mal que corri as vsceras da poltica e da administrao pblica brasileira est mais embaixo, na massa de 23.000 cargos federais de livre nomeao. Cortar ministrios sem avanar sobre eles, atacando-os aos milhares, profissionalizando-os ou extinguindo-os, equivaler a fazer uma operao plstica num organismo que exige interveno nos rgos vitais. 
     A segunda lio : recomenda-se cautela com as expectativas geradas pela Operao Lava-Jato. Crimes vm sendo denunciados e seus autores punidos, mas os motores que permitiram aos governos do PT levar a corrupo a inditas alturas continuam em funcionamento. Os cargos seguem abertos  traficncia. Campanhas alimentadas por somas escabrosas continuam garantidas, e at, a depender da Cmara de Eduardo Cunha, reforadas, com a elevao a preceito constitucional da permisso da contribuio empresarial aos partidos. Revelam-se vos tanto o exemplo do trfico de cargos na Petrobras quanto o ensinamento de que contribuies de campanha so emprstimos, a ser cobrados com juros (apud Paulo Roberto Costa). 
     Da derrubada de Collor pensou-se que surgiria um pas mais decente. Idem do escndalo dos Anes do Oramento e idem do mensalo. A cada uma de tais monstruosas roubalheiras, no entanto, seguiu-se uma maior. Em pleno julgamento do mensalo, aprimorava-se o petrolo. Agora, em pleno curso da Operao Lava-Jato, prossegue o mercado dos cargos. Semeia-se o terreno para o prximo escndalo. 

